terça-feira, 3 de julho de 2007

Eu tive um sonho...

A lei é uma só: mudar ou mudar.
Quem não muda, sofre as conseqüências. E elas vêm...silenciosas, traiçoeiras, sorrateiras...mas vêm.

Eu tive um sonho ruim. Tudo era muito frio, sem cor, sem vida. Paredes geladas, janelas parcialmente fechadas, frestas de luz que, com muito custo, conseguiam trazer um pouco de claridade a tanta sombra. Nos longos corredores, barulhos perturbadores, passos apressados, as rodinhas estridentes de uma maca, o eco de uma tosse forte, que revela a fraqueza de um corpo cansado.E em meio a isso tudo estava eu, mas não parecia que era eu! Sonhos são sonhos... Alguém frágil, entregue, rendida ao desânimo, olhos opacos. Nem de longe havia aquele brilho que tanto falavam, que um dia chamou a atenção em alguém. Apagados olhos brilhantes. No sonho, passaram-se dias daquela forma. Pessoas preocupadas, visitas constantes, cuidados médicos, uma internação necessária. A comida completamente insossa, sem gosto, sem nada. Tudo parecia tão real que as dores das várias agulhadas que recebia para coletas de sangue, exames, soro e afins eram agudas e deixavam marcas. Sentia rasgar a pele. Sentia ferir o corpo, machucar. Sentia as conseqüências do meu próprio desleixo por deixar chegar àquele quadro.
Da doença, falavam se tratar de uma tal de acetocidose. Mas isso era o de menos. Maior que a acidez presente no sangue era o medo. Sim, medo de tudo. Medo de dormir, de comer, de deitar, de não levantar, de não ouvir, não falar, não saber, não sorrir. Medo de perder quem se tem. Medo de perder quem ainda não se tem. Medo de um futuro inexistente, de sonhos que podem não se cumprir. Medo de expectativas vãs.
Eu sempre achei esse negócio de dar valor quando se perde algo um tanto clichê, ainda que fosse verdadeiro. Mas me enganei. A perspectiva da perda, do fracasso, é mais intensa do que aparenta e nos leva a um estado de reflexão profunda. Percebe-se a importância de uma vida inteira num breve limiar de tempo. Então eu preferi dormir...dormir...dormir. Dormir para não pensar. Dormir para viver sem receios. Mas uma hora eu teria de acordar.
Despertar de consciência! Epifania! É sempre bom reviver Clarice.
Coisas pequenas, detalhes despercebidos. Uma carreira de formigas que se alinham sobre um tronco, um dia ensolarado, as cores de um painel, a música suave tocando ao fundo, o tempero do feijão de casa, o vento batendo no rosto, mostrando que tudo se move e o tempo não para. Presentes que a vida nos dá.
No final, descobri que não havia sonho algum e tive de encarar que aquela nada mais era do que a minha realidade. Nem cruel, nem árdua. Nem dura, nem severina. Nem alegre, nem tranqüila. Mas minha. E a minha realidade não é nada doce, com o perdão da ironia. Mas também não é amarga.
Só quem perde sabe também ganhar e eu, ganho tempo. Ganho chances. Ganho novas oportunidades. Ganho luz, ganho fé, ganho vida. E isso eu não posso perder.

Um comentário:

Anônimo disse...

nossa... que tocante
e muito habilidosa
vc pode estar com vários medos, mas nada demonstra mais coragem que se expressar tão livremente, dramática e cômica, só pode ser muita habilidade mesmo
parabéns, não só pelo belo texto, mas pela força de saber o q se passa consigo mesma
beijos com o brilho da fé