sexta-feira, 20 de julho de 2007

Pipocas e nuvens


Eu ontem descobri com muita alegria (muita, muita alegria mesmo) que as pipocas possuem uma característica lúdica em comum com as nuvens.
Todo mundo que já olhou pro céu um dia, e espero que realmente tenha sido o mundo todo, viu uma nuvem se mexendo, solta, se desfacelando, leve como um algodão doce, lindo e límpido.
E, se teve a oportunidade, deitou no chão pra observar o movimento celeste, cores e formas. De repente, olhando pra nuvem avistou um dragão, nítido como um desenho, mas tridimensional. Os dentes, a cauda, e tudo mais, detalhados muito bem naquela brancura toda, pedindo apenas pra ser colorido.
Um instante de distração, e ao olhar novamente para o céu o dragão se perdeu.
Buscando sutilmente mais algum companheiro, logo se vê um bolo de aniversário, as velinhas... Olha! Olha lá, um bolo, as velinhas, ali no canto direito!
Não vejo, nem velinha nem bolo... Nossa, um carrossel! Um carrossel! Olha rápido nessa direção, vê? ali começa um cavalhinho...
Tá difícil! Mas logo do lado do bolo tem um anjo, um anjinho daqueles da Fiorucci, sabe? Tenho certeza que esse tá mais fácil de enxergar!

Eu sempre gostei de conhecer lugares, ou de mudar um pouco de terra. Mas nunca fui fã da viagem, do durante, "até chegar lá". Esperar não é bom, ou se aproveita o momento, ao invés de esperar pelo próximo, ou vai ter que sentir a chatice infindável de esperar. Até hoje não gosto muito de sentar em um ônibus pra ser levada até um lugar - mesmo sabendo que o ponto-final dessa espera vai me deixar feliz - com a idade talvez eu tenha aprendido um pouco a não ser tão ansiosa, e a não desperdiçar vida esperando.

Mas voltando às nuvens, sempre que viajava, principalmente de carro, sem querer me pegava olhando pro céu, acho que é meio inevitável, além de fazer muito bem. Quando me deitava no banco de trás - ser filho único traz algumas vantagens - observava pra fora da janela aquele céu azulzinho dividindo espaço (literalmente) com rastros brancos, conglomerados brancos, dependendo do tipo de nuvem. Daí fazia a brincadeira, me parece apropriado chamar assim, de caçar e enxergar coisas nos formatos das nuvens. É engraçado, agora que comecei a pensar nisso, as nuvens são tão branquinhas, dá até pra ter um sombreado aqui e ali por causa das outras nuvens, e mesmo sem grandes contrastes de cores é possível achar desenhos, com detalhes, que parecem perfeitamente verossímeis.

Ontem não tive que esperar em um ônibus nem em um carro, nem avião. Não fui a lugar nenhum. Lugar nenhum físico, porque posso afirmar que viajei. Pra lugares desconhecidos, ou até inexistentes, pois eles passam a existir assim que meu pensamento chega à eles.
Essas são viagens sem precedentes, sem guias, e sem procedentes também. Desafiam as leis da física, as leis morais, aquilo que é registrável e o impossível.
Eu comia pipoca. Após já ter abocanhado vários gramas das, leves como as nuvens, pipocas, olhei para os meus dedos, que seguravam três ou quatro delas e vi um cachorro. À primeira vista me pareceu um poodle, uma pipoca formando seu corpo e a outra, sua cabeça. Não pude me conter, afinal quantas mil vezes já comi pipoca na vida e em nenhuma delas tinha atentado que seu formato irregular podia dar pano pra manga, a manga da imaginação. Corri pra mostrar pra uma amiga, que não me dava muito crédito, meu humor me deixa mesmo em descrédito. Ela disse que não viu nada. O amigo veio correndo pra olhar também, e logo disse: é um poodle!.
Nesse momento fiquei extremamente satisfeita, assim como nas nuvens, alguns enxergam morcego, enquanto outros um palhaço. Mas ter alguém que enxergue o mesmo poodle é sempre muito confortável, um conforto materno, eu diria.
Enquanto mostrava pra primeira amiga, cheguei a enxergar um galo de bico aberto, e quase deu pra formar outras possibilidades. A outra amiga veio ver também, não conseguia direito. O último pediu pra ver o cachorro, e quando mostrei, lá se foi o sonho garganta abaixo: ele comeu o poodle.
Não fiquei triste nem saudosa de nosso efêmero, porém querido cão. Pipocas ainda há muitas. E espigas de milho.

2 comentários:

Caca disse...

Vc não ficou saudosa nem triste pelo poodle, mas putz, que final trágico!!! Eu realmente, lendo seu posto, digo que fiquei chocada e até mesmo revoltada pela crueldade com o pobre cão pipoquístico!! No momento eu não sei mto valor a esse momento, dei risada achando algo fútil da parte do comilão, banal, infantil. Mas agora percebo a maldade presente!!!

Parabéns pela criatividade e perspicácia de fazer o paralelo entre pipocas e nuvens. Elas realmente tem tudo a ver. Globo e vc!

Eu, afortunadamente, vi o falecido poodle! Eu vi, eu vi!! \o/ E que venham outros poodles e nuvens! :D

Caca disse...

Errata:

1)seu post*
2)não dei* mto valor

né? hahah

;P