Maringá, cidade charmosa, pessoas bonitas, avenidas largas e arborizadas. Um encanto. Uma festa. Uma van.
Chamava-se Vaca Trash Fashion, mas para nós era "festa da Vaca", mesmo. Com um nome desses, não era de se esperar muita elegância e comportamento dos participantes, é claro. A expectativa maior era de diversão e a promessa era de muitas risadas.
Começou pela van. Os quinze passageiros eram dos mais variados tipos. Cabelos arrepiados e punks, shortinhos curtíssimos e meias de ginástica coloridas estilo anos 90, óculos de gatinha extravagante, jeitos e trejeitos estranhos, falas moles, gestos afeminados e comportamentos no mínimo curiosos. Assim, partíamos para Maringá, numa van guiada por um casal de velhos pombos, por assim dizer. Seu Francisco, homem de boa educação e senso de humor (e muito, mas muito paciente e pacifista, como veremos adiante) dirigia o veículo. Dirigia, não. Pilotava. Para Dona Maria, esposa do velho Chico, a van "levantava vôo" quando partia. Cizuda, marrenta. Crica. Ela era chata mesmo, uma ranzinza como há muito não encontrava. Daquelas que não aumentam um ponto no volume do rádio porque "o som já estava estourando os timpo".
Na metade do caminho, os malucos da van já haviam deixado de lado a pouca inibição que tinham no início da viagem. É claro que o suquinho com vodka e as diversas latinhas de cerveja contribuíram para tal comportamento. Uns poucos ouviam música, outro dormia e alguns observavam no que aquilo tudo resultaria. Não demorou muito. Como num piscar de olhos, todos começaram a se beijar, e agarra daqui, que agarra de lá e beija um, que beija a outra, que resolve beijar o terceiro, o quarto, a quinta...e virou um fervo. Eu, rezando para que a religiosa - e cricra - Dona Maria não virasse o pescocinho para trás e tivesse um infarto fulminante vendo aquela pouca vergonha. Onde já se viu? Nos tempos dela namorava-se em casa, com o pai mirando uma espingarda na cara do safado que ousasse pegar na mão. Seu Francisco com certeza era um vitorioso.
Para meu alívio e graças às minhas tantas orações, chegamos em Maringá sem que a velha percebesse o circo que tinha se formado na van. Descemos na porta do bar e foi estabelecido: às 6h, no mesmo local. Não, não. Dona Maria precisava levantar vôo cedo, então cinco e meia era um horário "bom".
Fomos para a festa e antes, parada para um crime às portas da catedral de Maringá. Deus nos perdoe. No bar, a vaca já rolava solta e tudo era muito agradável e divertido. Música boa, gente bonita. Nada do que se encontra por aqui, nesses bares pavorosos e medonhos da João Cândido. Pausa para um McDonalds no meio da madrugada e depois, risadas. Muitas risadas. Dona Maria nos veio com versinhos estranhos do tipo
Homi com homi, mulé com mulé
faca sem ponta, galinha sem pé
E logo os bêbados de plantão começaram a trocar as bolas, inventando galinhas sem ponta, facas sem pé e pontas sem pé, galinhas sem ponta, e assim por diante. Alguém vomitou dentro da van, e a velha crica achou desaforo. Me culpou, quis que eu limpasse! Olhava com ódio para mim, dizendo que daquele jeito não tinha condições! Doida. Para completar, o barraco só estava começando. Passava das 6h e as pessoas ainda não haviam retornado. O bate-boca começou na porta do bar. Dona Maria foi a primeira a resmungar:
_Cala a boca.
_Cala a boca?
_É, cala a boca.
_Cala a boca você!
_Cala a boca!
_Ninguém me manda calar a boca!
_Cala a boca!
A velha discutia com a jovem punk rock e a "responsável" pela van enfim apareceu, para botar ordem na casa... se também não estivesse alcoolizada. Descalça, com os pés imundos, os cabelos rebeldes se encaracolavam suados e desgrenhentos sobre a testa, a maquiagem já borrada. Bem final de festa, quase uma andarilha. Ela surgiu, berrando:
_Eu tô puta. Eu tô puuuuuta! E sabe por quê?! Porque eu perdi meu cigarro! Eu tô puta! Eu tô puuuuta!
Minha maior preocupação diante daquilo era de segurar a gargalhada para não piorar o caos do momento. A coitada estava num estado drástico. Há quem tenha lhe chamado de mulher da vida, daquelas de Copacabana. Achei naquele momento que ela havia sido feita na cozinha do Cross, de onde saem os monstros. Só podia. Dona Maria e a Criatura começaram a discutir, dando gás novo ao barraco.
_Porque se a gente quiser, a gente compra essa van! Porque a gente é rico, a gente tem muito dinheiro! Meu pai é o dono de Londrina! Ele processa isso aqui!
E completava: "Ai, falei. Ai, falei!"
Foi preciso que o calmo Seu Francisco - que a mim já parecia mais ser São Francisco - perdesse a paciência e enfim "levantamos vôo". Uma noite onde aconteceu de tudo, mas valeu a pena. Saí da rotina, era preciso apagar um pouco da memória aquilo que andava me rondando...e me incomodando, já. Teve gente que fez falta. Teve gente que não fez. E espero que não faça por muito tempo.
Ai, falei!
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