Mantenha-me em minha redoma, amén!Ela pede pra não se aproximarem. Mas dizem que ela é instruída, alguns dizem até que usufrui de privilegiada compreensão das coisas. As coisas. A sua sensatez é para ela algo digno de seu próprio orgulho. É uma sensatez ainda verde, passando pra amarela. Julga, erra, comete equívocos, vai fundo nas avaliações feitas sem fundamento, que se deixam levar por invejas e ódios, nos apontamentos desnecessários, no costume de se averbar sem se dar conta. No arrependimento ao passo que pronuncia seus infames vereditos. Um suspiro. Contento, percebeu a cagada repetida, discorda das palavras, das linhas de pensamento, e quer a borracha.
Não, não, por favor, eu não queria ser rude, a minha intenção não era essa, não sei me expressar, isso não sou eu, acredite. Talvez seja melhor eu não tentar novamente, não tenho nada a declarar sobre isso. Nego e não devo, estou pagando à vista - e como é agradável poder fazê-lo.Se todas as vezes conseguisse executar o que a consciência grita, com certeza pesaria menos. Não é o caso. Ela se contenta com as barreiras vencidas em alguma porcentagem de tais atos frequentes. Por isso, também, engordou. E isto a preocupa, claro que muito mais quando fica algum período sem ler, e a gordura corpórea pode ter espaço em sua atenção. Lendo se encanta tanto, que nesse momento pretende comer livros, não pular um diazinho sem os saudar. Balela. Quase sempre cumpre suas promessas, a não ser que tenham sido feitas a alguém descrente, a ela mesma.
Ah, mas se souberam disso, cortaram matagal tão denso, chegam ao paraíso e querem o asfalto? Ai, a hipocrisia, saia daqui seu câncer! A minha bunda tem que ser dura e dourada, você sabe quanto tempo eu gastarei em ofício que só serve o fim? Muito tempo, com certeza. E mais, se eu me esforço pra ter a beleza perfeita, firo certos princípios. Não que eles sejam princípios desleixados, mas... eu não quis dizer princípios, são prioridades. Isso! A vida é curta rapaz. Também me satisfaço vendo belas bundas, só que tendo a noção de que minhas escolhas seguem outros rumos, me sinto pouco a vontade esculturando uma matéria bruta e detalhada. Aquela culpa cristã que, pra um não-cristão é bem forte, aterroriza por ser verdadeira também acaba comigo. Uma deprê fudida!O fato é que olha a banha, e como qualquer humano contemporâneo, se desanima.
Ele a observa com olhos de gato carinhoso e acuado. A ausência dela traz uma boca torta, com um ar de desdém. É bonito para ela, processa essa visão e secretamente se alegra. Lembra de seu corpo ao espelho, parece aceitável. Ele anda à sua frente, sai sem dar tchau, não é caloroso. É amigável com todos. Seu corpo ao espelho, terror da pior espécie.
Desiste da perfeição, e do espelho por alguns instantes. A eternidade com frases sem-sentido-explicativas brotando de seus lábios parece tão mais legal.


