segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Então enrolei mais dois. No meio do segundo, a coisa começou, uma impressão de flutuar, de ser arrancado da terra, a alegria e o triunfo de um homem sobre o espaço, a extraordinária sensação de poder. Ri e traguei de novo. Ela estava lá deitada, o langor frio da noite anterior em seu rosto, a paixão cínica. Mas eu estava além do quarto, além dos limites da minha carne, flutuando numa terra de luas brilhantes e estrelas cintilantes. Era invencível. Não era eu mesmo, nunca fora aquele sujeito com sua felicidade sinistra, sua estranha bravura. Uma lâmpada na mesa ao meu lado, apanhei-a, examinei-a e a deixei cair no chão. Quebrou-se em muitos pedaços. Eu ri. Ela ouviu o barulho, viu os cacos e riu também.
- Qual é a graça? - falei.
Ela riu de novo.

Pergunte ao pó - John Fante, pgs. 178, 179

Qual é a graça? - perguntei, esperando a resposta do mais corajoso e sincero.

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