Um gosto de amora
Comida com sol. A vida
chamava-se Agora
(Infância - Guilherme de Almeida)
É de impressionar tamanho brilhantismo do Hai Kai. Este é um estilo japonês de escrita que se utiliza de certas características bastante peculiares. Constitui o Hai Kai os poemas cujos versos tenham no máximo sete sílabas poéticas e as rimas sejam dispostas horizontal e verticalmente. Além de curtos, devem obrigatoriamente remeter a uma estação do ano e trabalhar não apenas significados mas também significantes. É de um requinte extremo.
Mas maior ainda é a minha admiração pelo aspecto interpretativo dos Hai Kai. Mais do que a técnica minuciosa com que são escritos, chama-me a atenção o sentido que trazem, a idéia, o pensamento tão amplo dentro de poucos e curtos versos.
Este acima, Infância. Três versos, onze palavras. Um significado rico e tão abrangente que nos remete a inúmeras respostas. Falar de infância sempre nos suscita imagens, resgata memórias, relembra histórias, confere valores. Eu mesma me sinto saudosa desta época, e nem faz tanto tempo! Saudosa de quando descrevia meu dia nas páginas de diários que julgava secretíssimos. Coisas de criança, mas que pra mim eram sigilosas como as coisas de adultos. Tempo em que subia na pitangueira do colégio, em que criava brincadeiras, quando comia trevos. Sim, eu comia. Fazia sopa deles, e ainda gostava. Tempo em que queria ser "grande" e me realizava passeando só com as amigas no shopping aos sábados à noite. Tempo em que brincava de verdade ou consequência sem malícia alguma, achando que era malandra. Você acha que eu tenho cara de malandra?! Bobagem, deixemos de lado isso. Tanta coisa que deixa saudade. O bolo de cenoura com cobertura de chocolate, o joelho ralado, o beijo carinhoso da mãe antes de dormir.
_A bênção, mãe.
_Deus te abençõe, filha.
Parece uma realidade distante das pessoas hoje, mas trazia algo especial, uma relação de intimidade, cara de família mesmo. Com o tempo meus pais deixaram de ir ao meu quarto dar especial beijo de "boa noite", mas eu passei a ir até eles. Hoje poucas vezes isso acontece e eu sinto falta, sem receios de admitir. Os compromissos do dia-a-dia vão tomando o espaço daquilo que realmente importa. Ontem voltei do trabalho tarde, cansada, era noite já. Minha mãe veio me receber calorosa, me abraçou feliz.
_Quase te liguei hoje, filha, só pra dizer que te amo, de tanta saudade! Mas não quis incomodar seu trabalho.
Adoraria o incômodo.
As paqueras, os bilhetinhos em sala de aula, as cabaninhas feitas com lençol no meio da sala, os kinder ovo de 1 real, o chocolate Surpresa com desenhos de bichinhos, a tigela de sucrilhos com leite, as roupas e cabelos ridículos que as mães insistiam em nos fazer usar, os gibis da turma da mônica, es episódios de Jaspion e Power Rangers, Ursinhos Carinhosos e o Xou da Xuxa com o Praga e o Dengue.
Doce inocência. Doce como o gosto de amora madura, bem roxa, depois de ter passado por outras tantas cores. O sol faz com que uma infrutecência tão pequena transforme-se gradativamente, passando do branco ao verde, do verde ao rosa, do rosa ao vermelho, do vermelho ao roxo e do roxo ao preto. Comida com sol. Bom é saber que existem estímulos que também nos transformam e nos amadurecem com o tempo. Ser criança sempre não deve ser tão bom assim. Levar puxão de orelha, ficar de castigo, usar gel no cabelo, ter tarefa de escola todos os dias e comer salada sempre que mandam... Para cada tempo, sua conveniência.
Hoje convém escrever, aprender, experimentar, sentir, conhecer, renovar, esquecer. Convém decidir. Não, talvez isso ainda não convenha.
Hoje, convém ser eu, simplesmente eu. Com meus medos e erros, limites e desejos. E isso eu não posso deixar para viver depois.
A vida chama-se Agora.
Comida com sol. A vida
chamava-se Agora
(Infância - Guilherme de Almeida)
É de impressionar tamanho brilhantismo do Hai Kai. Este é um estilo japonês de escrita que se utiliza de certas características bastante peculiares. Constitui o Hai Kai os poemas cujos versos tenham no máximo sete sílabas poéticas e as rimas sejam dispostas horizontal e verticalmente. Além de curtos, devem obrigatoriamente remeter a uma estação do ano e trabalhar não apenas significados mas também significantes. É de um requinte extremo.
Mas maior ainda é a minha admiração pelo aspecto interpretativo dos Hai Kai. Mais do que a técnica minuciosa com que são escritos, chama-me a atenção o sentido que trazem, a idéia, o pensamento tão amplo dentro de poucos e curtos versos.
Este acima, Infância. Três versos, onze palavras. Um significado rico e tão abrangente que nos remete a inúmeras respostas. Falar de infância sempre nos suscita imagens, resgata memórias, relembra histórias, confere valores. Eu mesma me sinto saudosa desta época, e nem faz tanto tempo! Saudosa de quando descrevia meu dia nas páginas de diários que julgava secretíssimos. Coisas de criança, mas que pra mim eram sigilosas como as coisas de adultos. Tempo em que subia na pitangueira do colégio, em que criava brincadeiras, quando comia trevos. Sim, eu comia. Fazia sopa deles, e ainda gostava. Tempo em que queria ser "grande" e me realizava passeando só com as amigas no shopping aos sábados à noite. Tempo em que brincava de verdade ou consequência sem malícia alguma, achando que era malandra. Você acha que eu tenho cara de malandra?! Bobagem, deixemos de lado isso. Tanta coisa que deixa saudade. O bolo de cenoura com cobertura de chocolate, o joelho ralado, o beijo carinhoso da mãe antes de dormir.
_A bênção, mãe.
_Deus te abençõe, filha.
Parece uma realidade distante das pessoas hoje, mas trazia algo especial, uma relação de intimidade, cara de família mesmo. Com o tempo meus pais deixaram de ir ao meu quarto dar especial beijo de "boa noite", mas eu passei a ir até eles. Hoje poucas vezes isso acontece e eu sinto falta, sem receios de admitir. Os compromissos do dia-a-dia vão tomando o espaço daquilo que realmente importa. Ontem voltei do trabalho tarde, cansada, era noite já. Minha mãe veio me receber calorosa, me abraçou feliz.
_Quase te liguei hoje, filha, só pra dizer que te amo, de tanta saudade! Mas não quis incomodar seu trabalho.
Adoraria o incômodo.
As paqueras, os bilhetinhos em sala de aula, as cabaninhas feitas com lençol no meio da sala, os kinder ovo de 1 real, o chocolate Surpresa com desenhos de bichinhos, a tigela de sucrilhos com leite, as roupas e cabelos ridículos que as mães insistiam em nos fazer usar, os gibis da turma da mônica, es episódios de Jaspion e Power Rangers, Ursinhos Carinhosos e o Xou da Xuxa com o Praga e o Dengue.
Doce inocência. Doce como o gosto de amora madura, bem roxa, depois de ter passado por outras tantas cores. O sol faz com que uma infrutecência tão pequena transforme-se gradativamente, passando do branco ao verde, do verde ao rosa, do rosa ao vermelho, do vermelho ao roxo e do roxo ao preto. Comida com sol. Bom é saber que existem estímulos que também nos transformam e nos amadurecem com o tempo. Ser criança sempre não deve ser tão bom assim. Levar puxão de orelha, ficar de castigo, usar gel no cabelo, ter tarefa de escola todos os dias e comer salada sempre que mandam... Para cada tempo, sua conveniência.
Hoje convém escrever, aprender, experimentar, sentir, conhecer, renovar, esquecer. Convém decidir. Não, talvez isso ainda não convenha.
Hoje, convém ser eu, simplesmente eu. Com meus medos e erros, limites e desejos. E isso eu não posso deixar para viver depois.
A vida chama-se Agora.

Um comentário:
eu tenho uma indefinição de gosto sobre hai kais. Outro dia estava lendo sobre eles, vi uma comunidade no orkut, era sugerido um tema e cada um postava um hai kai que achava ter a ver com ele. mas eles são tão curtos, podem ser brilhantes e mal-feitos por causa da simplicidade e do minimalismo, eu não sei o limite entre arte e borrão.
mas a sua infância deve ter sido boa, como devia ser a de td mundo, se nós q cuidamos do mundo tivéssemos decência e afeto.
parabéns, kakke
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