terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Barroco


O Barroco é um período literário que se caracteriza, principalmente, pelo dualismo. Contraste entre bem e mal, paz e conflito, claro e escuro, palavras e idéias, céu e terra, Deus e homem, enfim. No contexto histórico barroco, apresenta-se um homem dividido entre suas razões e emoções, duvidoso do que quer pra si mesmo e o que deve seguir. O Renascimento gerou um novo pensar, mais prático, racional. Não importava mais aquele apego à fé e às coisas de Deus, valia mesmo era o capital e o estímulo a uma racionalidade inquestionável. Mestres como Da Vinci, Rafael Sanzio e Michelangelo esclarecem de maneira clara isso com sua Arte, milimetricamente perfeita e valorizando o corpo e a mente.
Mas com o tempo, o homem foi ficando tão humano, tão humano, que sentiu a falta de Deus. Ou pelo menos a falta de sua crença, do acreditar em algo, da busca incessante por um objetivo maior, da fé. E foi exatamente essa "ausência divina" que o fez voltar novamente à sua postura de buscar Deus e se apegar à doutrina da Igreja. O homem barroco trazia em si o pensamento racionalista, herança do renascimento, e o coração barroco, mesclando fé e razão.
"Barroco" não é um nome criado simplesmente. O período sucessor ao Renascimento recebeu essa denominação devido a um conceito que representa bem as características deste estilo. Significa " pérola irregular" ou "pérola deformada" e representa de forma pejorativa a idéia de irregularidade, ondulações, detalhes. Riquezas e pormenores que revelam a beleza e a perfeição de algo naturalmente irregular. Encantador.
Entre idas e vindas, sigo eu no meu "barroquismo contemporâneo". Uma amiga muito querida voltou recentemente de Salvador dizendo que a cada igreja barroca que visitava, lembrava-se de mim. Eu sou uma mulher barroca. Sempre dividida entre meus pensamentos e atos, entre minha fé e convicções pessoais, entre meu racionalismo romântico e minha emoção fria e firme. Sei o que me faz bem, mas não sei se o que me faz bem é o que deveria de fato me fazer bem! Ás vezes penso que o que me faz bem é o que acaba por me fazer mal, na realidade. Mas o que me faz mal é um dos meus maiores bens...daqueles que não se abre mão tão facilmente.
Eu não sou cega, não sou tola. Eu tenho percepção das coisas, sei que nem tudo me convém, sei que algumas coisas não me são permitidas pelo meu bom senso. Talvez seja um mal senso, mas enfim. Há quem julgue essa conduta dualista como falta de personalidade, coisa de quem não sabe o quer. Inconstância. Fala que acredita numa coisa, mas faz outra. Diz-que-me-diz, faz-que-não-faz. Como se cada palavra pronunciada fosse um veredicto, um caminho sem volta. Não é assim, o jeito de pensar muda, a postura muda também, é consequência. Fé cada um tem a sua. Razão também! Ou por acaso existe uma crença mais certa do que a outra? Quem julga a maneira de pensar das pessoas são as próprias pessoas. Sendo assim, como afirmar que um está certo e o outro não? Com base na lei de quem se faz isso? A lei dos homens é falha; a Lei de Deus só Ele deve conhecer.
Só sei que no meu conflito de Fé e de Razão, as duas me deram uma bela rasteira e me derrubaram de surpresa. Se aliaram, só pra me sacanear. E só pra contrariar tudo e todos, é justamente a minha fé que vai ajudar a minha razão se manter firme no que ela acredita ser certo e valer a pena, independente de que querem as outras tantas razões e "fés" por aí.

E que assim seja, amém.

sábado, 1 de dezembro de 2007

Problema mundano, problema divino

Quanta coisa legal, que começa e termina e volta...


O interrogador
Julio Cortázar

Não pergunto pelas glórias nem pelas neves,
quero saber onde se vão juntando as andorinhas mortas,
para onde vão as caixas de fósforos usadas.
Por maior que seja o mundo
há os recortes de unhas, as bolas de pêlos,
os envelopes cansados,
os cílios que caem.
Para onde vai o nevoeiro, a borra do café,
os almanaques de outro tempo?

Pergunto pelo vazio que nos move;
nesses cemitérios, suponho
que cresce pouco a pouco o medo,
e que ali choca o Roca.¹

NOTA: 1- Pássaro mitológico, que aparece nos relatos de viagem de Marco Polo pelo oriente. Um pássaro muito forte, capaz de carregar um elefante com suas garras.

*Poema e nota retirados da Revista Coyote nº15, traduzido do espanhol por Cassiano Viana.


[...]Se para Kant a metafísica não é possível como ciência, ele não tem dúvida alguma de que os problemas que ela levanta são importantes e, inclusive, muito mais importantes que os da física. Se os corpos caem a 9,8 ou 9,9 metros por segundo nada muda, porém muda muito se existe ou não existe Deus, se existe ou não existe alma imaterial e imortal. Contudo, as questões colocadas pela metafísica não são para Kant unicamente relevantes, elas são necessárias; são questões a que a Razão não pode responder, e, no entanto, paradoxalmente, não pode deixar de se colocar. A Razão é basicamente a capacidade de procurar razões, ou seja, de buscar porquês. Nisto consiste sua tarefa própria e específica.[...]

Mário porta. A filosofia a partir de seus problemas. São Paulo: Edições Loyola, 2002. Página 117.




Cena de "Árido Movie", realmente instigante, sensível e pertubador. Com personagens, atores, e enredo, todos, por incrível que pareça, muito interessantes, todos um mundo à parte.


"Partindo do princípio de um bem - acessível, democrático, maior, comum - acho que devo publicar minhas idéias e teorias, mesmo as mais absurdas (de acordo com o que meu orgulho permitir), para que assim, mesmo que eu não evolua meus pensamentos, alguém possa evoluir os seus e compartilhá-los também. Até se, após algum tempo, eu sentir vergonha da minha ingenuidade e discordar das minhas idéias anteriores, afinal estamos aqui para buscar porquês e não para achar um e morrer."
Maria Clara A. M., 28/11/2007