terça-feira, 28 de agosto de 2007

Pagar à vista

Na encolhida contra o frio dá pra ver sua pele feia. Uma musculatura mole, amorfa, opaca, irregular. Ela até agradece, essa vista é só dela.
Mantenha-me em minha redoma, amén!
Ela pede pra não se aproximarem. Mas dizem que ela é instruída, alguns dizem até que usufrui de privilegiada compreensão das coisas. As coisas. A sua sensatez é para ela algo digno de seu próprio orgulho. É uma sensatez ainda verde, passando pra amarela. Julga, erra, comete equívocos, vai fundo nas avaliações feitas sem fundamento, que se deixam levar por invejas e ódios, nos apontamentos desnecessários, no costume de se averbar sem se dar conta. No arrependimento ao passo que pronuncia seus infames vereditos. Um suspiro. Contento, percebeu a cagada repetida, discorda das palavras, das linhas de pensamento, e quer a borracha.
Não, não, por favor, eu não queria ser rude, a minha intenção não era essa, não sei me expressar, isso não sou eu, acredite. Talvez seja melhor eu não tentar novamente, não tenho nada a declarar sobre isso. Nego e não devo, estou pagando à vista - e como é agradável poder fazê-lo.
Se todas as vezes conseguisse executar o que a consciência grita, com certeza pesaria menos. Não é o caso. Ela se contenta com as barreiras vencidas em alguma porcentagem de tais atos frequentes. Por isso, também, engordou. E isto a preocupa, claro que muito mais quando fica algum período sem ler, e a gordura corpórea pode ter espaço em sua atenção. Lendo se encanta tanto, que nesse momento pretende comer livros, não pular um diazinho sem os saudar. Balela. Quase sempre cumpre suas promessas, a não ser que tenham sido feitas a alguém descrente, a ela mesma.
Ah, mas se souberam disso, cortaram matagal tão denso, chegam ao paraíso e querem o asfalto? Ai, a hipocrisia, saia daqui seu câncer! A minha bunda tem que ser dura e dourada, você sabe quanto tempo eu gastarei em ofício que só serve o fim? Muito tempo, com certeza. E mais, se eu me esforço pra ter a beleza perfeita, firo certos princípios. Não que eles sejam princípios desleixados, mas... eu não quis dizer princípios, são prioridades. Isso! A vida é curta rapaz. Também me satisfaço vendo belas bundas, só que tendo a noção de que minhas escolhas seguem outros rumos, me sinto pouco a vontade esculturando uma matéria bruta e detalhada. Aquela culpa cristã que, pra um não-cristão é bem forte, aterroriza por ser verdadeira também acaba comigo. Uma deprê fudida!
O fato é que olha a banha, e como qualquer humano contemporâneo, se desanima.
Ele a observa com olhos de gato carinhoso e acuado. A ausência dela traz uma boca torta, com um ar de desdém. É bonito para ela, processa essa visão e secretamente se alegra. Lembra de seu corpo ao espelho, parece aceitável. Ele anda à sua frente, sai sem dar tchau, não é caloroso. É amigável com todos. Seu corpo ao espelho, terror da pior espécie.
Desiste da perfeição, e do espelho por alguns instantes. A eternidade com frases sem-sentido-explicativas brotando de seus lábios parece tão mais legal.

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

...

Era pra eu postar um texto, mas eu estou com muito sono e não aprovei o que eu escrevi.

Pros tolos, principalmente pra tolas:

A Dona da História - Cena do filme, aliás, cortada antes do que seria bom.

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sábado, 25 de agosto de 2007

Eu sou uma belíssima merda seca e pisoteada

se um dia escreveres algo mais poético, me mato

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

Uma coisa é certa

A escolha certa aqueles pés na bunda alheia
Ai, que descabelação! Ó que tortura ter que decidir!
Oh Johnny, oh Mary!
Você doeu, de tanta chatice!
Desciiiiiiiii, ... me afoguei na lama da incerteza, do medo, da pena (!) de você, claro
mas quem merecia pena era eu
ou um pouco de compreensão, ou um surto psicótico violento
hahahahaha
e tudo que é tão dramático dá vontade de rir
você me faz rir, quando não é de sua graça é de nervoso e de raiva
tudo que não muda me dá ódio
todos que não mudam, eu me mudo

insuportável acordar de manhã, entrar naquela sala, ouvir sobre a movimentação das massas de ar!?
você não sabe o quanto vale cinco minutos na vida!
pernas, pernas, sombras, árvores, coração na boca
eu vou!
está decidido, sem choro nem vela nem fita amarela gravada com o nome de ninguém
principalmente o meu haha
ou sim?
agora faz um tempo, e me sinto mais viva do que quando saí correndo daquela sala monótona
acho que não foi a minha sentença de morte

eu não pensava em nada, se quer saber
ser à toa é quase meu sobrenome
vou passar num cartório quando arranjar um mais
(elegante, útil, inteligente, bonito, amável, decente)
honesto!
um tempão sem destino e sem casa
até que a hostilidade me infernizou

a Feiurinha no meio da roda, enquanto as bruxas riem gostosa e maldosamente
A Feiurinha é tão ruim que não se impõe, a pobre não sabe atuar
eu estava num seriado imbecil americano sobre informações top secret
informações que justo eu sabia, mas nunca poderia revelar
eu fazia parte delas, eu não tinha medo delas
eu não perderia minha decência para me vingar de falidos
mais fortes que eu
me rindo por estar de mãos atadas, uma derrotada, um projeto de gente
mas
ó, eu ainda acho que deveriam ser mais caprichosos
e deixar o ensaio de lado, e entrar logo em cena, com segurança!
a frustração alheia despejada sobre mim é sempre agressiva

O meu maior medo
escolher
escolher deve ser definir, pelo menos teoricamente
e definir é incluir tudo o que é e jogar fora tudo o que não é
mas nada se perde, nada se cria
tudo se transforma

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Eu e ela, Encantadas!

A noite fez-se inigualavel, com coisas tão simples, tão comuns, mas estimulantes. É como um vício que consome e faz querer mais. Mais, mais, mais!

Agora escrevo e talvez eu nem saiba pra quê nem o quê, mas o importante é expressar, extrapolar! Dessa vez, danem-se os erros de português. Por uma noite, que seja esquecida a gramática, a cautela, o comportamento comportado, o juízo e o equilíbrio. Eu não os perdi, mas é como se por um momento eu tenha permitido que eles caissem no esquecimento e no mundo da minha mente insana e irreal.

Uma meia cheirando vinho! Que coisa mais idiota! Quero repetir o idiota muitas vezes. Não foi só o cheiro de vinho que me consumiu, mas os respingos, a deliciosa desorganização, a mistura de cheiros, comidas e bebidas. Foi a conversa, a companhia, o filme, a atração pelo inatingível, os planos, sonhos, projetos que precisam se realizar! Fui além, num mundo que queria que existisse, um lugar que de tão imaginário pareceu perfeitamente real pra mim. Só posso querer mais.

Madonna canta Erotic agora e é como se estivesse aqui, tamanha a minha sensibilidade. Me faz querer tantas coisas! Coisas que talvez esse não seja o espaço ideal para serem reveladas, mas que obviamente ficam subentendidas e margeiam os pensamentos de quem lê esses posts, lê e se deixa mergulhar num mar de ilusões, sonhos, fantasia que as palvras sempre nos remetem e nos permitem chegar. Por isso eu gosto tanto delas, tenho paixão, veneração! Escrever, escrever, postar, postar! Nem que seja somente para eu ler, para poder reviver tudo o que um dia eu tive a oportunidade de conhecer e sentir.

Momentos únicos, raros. Mas que poderiam ser mais frequentes. Será que tudo isso é bom? De acordo com a uma amiga muito companheira e filósofa, é bom aquilo que nos faz feliz. De acordo com uma outra velha e fiel, mas muito conservadora colega, nem tudo que nos deixa alegres representa uma felicidade verdadeira. É tudo muito confuso, mas a Madonna está gritando aqui em meus ouvidos: Time goes by so slowly!
Passa devagar sim... mas assim é que é bom. Aos poucos, e eu aproveitando cada momento da melhor maneira possivel.

Não importa hoje pra mim o que dizem, o que pensam, o que comentam. Acho que falam que eu tenho hábitos estranhos. Sinto isso. Mas, e daí?! Eu tenho minha consciencia limpa e livre. Deixa que falem, deixa que queiram que eu seja como eles querem!
Eu quero mais é viajar com quem me faz bem.
Encantadas. É assim que ficaremos.
Então enrolei mais dois. No meio do segundo, a coisa começou, uma impressão de flutuar, de ser arrancado da terra, a alegria e o triunfo de um homem sobre o espaço, a extraordinária sensação de poder. Ri e traguei de novo. Ela estava lá deitada, o langor frio da noite anterior em seu rosto, a paixão cínica. Mas eu estava além do quarto, além dos limites da minha carne, flutuando numa terra de luas brilhantes e estrelas cintilantes. Era invencível. Não era eu mesmo, nunca fora aquele sujeito com sua felicidade sinistra, sua estranha bravura. Uma lâmpada na mesa ao meu lado, apanhei-a, examinei-a e a deixei cair no chão. Quebrou-se em muitos pedaços. Eu ri. Ela ouviu o barulho, viu os cacos e riu também.
- Qual é a graça? - falei.
Ela riu de novo.

Pergunte ao pó - John Fante, pgs. 178, 179

Qual é a graça? - perguntei, esperando a resposta do mais corajoso e sincero.

alegria, alegria!

E a vida é boa eu pergunto
ela é ela pode ser
ela sempre pode ser
o que me faz feliz nunca é errado, o que é errado não existe
eu não tenho culpa nisso
porque isso, meu caro amigo, isso você também pode ter
é só amar
amar a sua única e valiosa vida

e eu crio eu recrio invento formulo
formulo não
não há tempo para formulações
que gravata sensacional olha os detalhes da gravata, que combinações de coress
as margaridas de amores com jasmim, é um jardim suspenso dependurado no pescoço de um homem simpático e feliz
com aquela gravata qualquer homem feio vira príncipe
ele é o rei, ah é o rei
quero ver ficares triste com este suingue malandro e conquistador
pois eu vi um filme, um filme bom, com alguém apaixonante
diria mais, é difícil ser atrante como ele é para mim
tem uns dias que eu acordo pensando e querendo saber
de onde vem o nosso impulso de sondar o espaço
mas é algo mesmo impensável
e que se pode voar sozinho até as estrelas ou antes dos tempos conhecidos
vieram os deuses de outras galáxias ou de um planeta de possiblidades impossíveis e de pensar
que não somos os primeiros seres terretres
errare humanun est!!

você tem seus dedos anestesiados?
você pode ver que bela imagem?
nem deuses nem astronautas
puxa como é leve não dever explicações por pensamentos densos, e profundos
os pensamentos não me dominam
podes crer
tudo é meu e eu sou tudo, mas nada me possui

domingo, 12 de agosto de 2007

De um terno tango

Atravessando a Higienópolis. Um belo tango, tão triste e lindo, como o rosto esperando o amor que não existe.
Uma alegria profusa e calma, em uma noite agradável ao tato e à visão. Mas à liberdade, à independência, à plena noção do caminho e do destino. Plena que se desmancha, não há certezas. Bom! Isto não deve ser de todo mal... a não ser quando estou no meu fusca-marido-irmão-pai com filmes que queria ver, e uma rota elaborada e uma noite já certa. Pois o domingo vazio é pior do que qualquer outro vazio, ele é certeiro.
Vou à farmácia, compro meu remédio, ao posto, e ao supermercado - comprar sonhos. Parece bem mais que regular. Em casa, uma lasanha, um vinho, uma pipoca, não sei, que seja algo prazeroso ao paladar.
Para o lado direito, são carros, divertindo seus passageiros vazios no domingo cheio. Nem percebo, é assim todos os dias, mas eles continuam vazios.
O sinal se fecha, e olho para a direita, de costas uma sombra estranha. O carro ainda está em movimento, tenho que manter a atenção à minha frente. Observo melhor, antes parecia um anão. Eram calças largas e caídas, uma blusa velha e arregaçada como um pano torcido e esticado. O sinal abre, tenho que andar, tentando olhar para trás e adivinhar seu rosto, sua figura. A tristeza do tango torna-se mais. Fica uma cena de doçura doída, com o fundo de uma culpa da minha idade. Cambaleando entre parar onde estou e seguir adiante a mesma mediocridade dos pobres carros, donos de babacas. Ou dos pobres donos de carros babacas, pobres babacas que seus carros são seus donos.
Meu coração não é tão sujo, não devo fazer comparações.
Sigo, tendo esquecido de parar na farmácia, e o supermercado, subversor filho da puta, está fechado. Ainda há esperança de que seu vinho me embebede e faça esquecer da triste figura, nobre pois, acompanhada por meu tango. Surpresa e decepcionada, pensando em outra solução pra se livrar do semblante que a tristeza agridoce do tango e sua figura deixaram. Na garagem, o carro tosse. Tosse, tosse, já te conheço muito bem senhor. É a gasolina. Agora fique mal estacionado, fico eu à espera de que o filme me alente, e me alerte. Que alguém me alegre.

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Anúncio

PROCURO NAMORADA
Meu nome é Ronaldo R. Godoi, sou solteiro, tenho 34 anos, meço 1,70 metros de altura, peso 80kg, não fumo, sou formado em licenciatura em Física e no meu trabalho opero computadores e presto assistencia em sistemas. Quero namorar e casar. Eu não conheço você, não sei seu nome, nem sequer como você é, mas eu sinto que falta uma parte de mim e você tem que completá-la. Como não sou alto, embora minha altura seja normal, eu quero conhecer alguém que tenha altura de aproximados 1,50 metros ou seja menor que 1.65 metros. Escreva para mim: caixa postal 00307, Londrina-PR, CEP 86001-970. Na carta você pode mandar foto ou dizer o nome, a altura, idade, peso, escolariedade. Vamos nos encontrar no dia 12/08/07, às 16h30min, para conversar e ouvir música na Av. Higienópolis, 437, no Pastel Mel - Londrina. Estarei te esperando de terno preto e com duas alianças de prata na mão direita, quando nós concordarmos em namorar, eu lhe entrego a sua. Gostaria de dizer que só eu posso falar em meu nome, até logo!!!


Este foi um anúncio publicado na Folha de Londrina do último domingo, 05/08, para convocar as interessadas de plantão num homem que solteiro procura. Como se pode ver, trata-se de um sujeito distinto, ainda jovem (no auge de sua disposição sexual), altura mediana - e, como ele mesmo se refere depois, "normal" (talvez existam muitas alturas anormais, excepecionais, de fato), físico (observa-se então de que se trata mesmo da pessoa exata, mas cuidado: ele pode ser calculista) e um rapaz de nobres valores: pra casar. As alianças ele já tem. Pressa e desespero também, ao que me parece.
A data referida é ótima, bem romântica. Dia 12/08, um domingo no meio da tarde. Para você que estará num churrascão em família, assistindo futebol com os amigos ou indo para o shopping encarar Londrina e a região inteira perambulando pelo Catuaí e tentando estacionar no Carrefour, será incrível interromper a programação para comer um pastelzinho com o homem de seus sonhos - com música ao fundo, atente-se ao detalhe. Quem sabe seja Tim Maia e Gal cantando "Como um dia de Domingo". Apropriado, eu diria.

Você tem problemas afetivos? Carências sexuais? Vontades reprimidas? Você está cansado de beijar o primeiro tribufu que aparece porque ninguém te quiere? Morre de medo de ficar para a titia? Anda tão desesperada que já começou a se interessar por habitantes crosísticos, jotísticos e friendísticos?! Pois seus problemas acabaram! O nobre colega acima relacionado está disposto a resolver esse tipo de problema. Não tem erro, é grátis e necessita de apenas uma consulta. Para os que já juntaram suas escovas de dente, uma boa pedida é assistir ao Domingão, com atrações divertidíssimas como "Sirislene" Stefanelli (sex symbol da festa do Milho) e o Circo do Faustão.

Hai Kai

Um gosto de amora
Comida com sol. A vida
chamava-se Agora


(Infância - Guilherme de Almeida)


É de impressionar tamanho brilhantismo do Hai Kai. Este é um estilo japonês de escrita que se utiliza de certas características bastante peculiares. Constitui o Hai Kai os poemas cujos versos tenham no máximo sete sílabas poéticas e as rimas sejam dispostas horizontal e verticalmente. Além de curtos, devem obrigatoriamente remeter a uma estação do ano e trabalhar não apenas significados mas também significantes. É de um requinte extremo.
Mas maior ainda é a minha admiração pelo aspecto interpretativo dos Hai Kai. Mais do que a técnica minuciosa com que são escritos, chama-me a atenção o sentido que trazem, a idéia, o pensamento tão amplo dentro de poucos e curtos versos.
Este acima, Infância. Três versos, onze palavras. Um significado rico e tão abrangente que nos remete a inúmeras respostas. Falar de infância sempre nos suscita imagens, resgata memórias, relembra histórias, confere valores. Eu mesma me sinto saudosa desta época, e nem faz tanto tempo! Saudosa de quando descrevia meu dia nas páginas de diários que julgava secretíssimos. Coisas de criança, mas que pra mim eram sigilosas como as coisas de adultos. Tempo em que subia na pitangueira do colégio, em que criava brincadeiras, quando comia trevos. Sim, eu comia. Fazia sopa deles, e ainda gostava. Tempo em que queria ser "grande" e me realizava passeando só com as amigas no shopping aos sábados à noite. Tempo em que brincava de verdade ou consequência sem malícia alguma, achando que era malandra. Você acha que eu tenho cara de malandra?! Bobagem, deixemos de lado isso. Tanta coisa que deixa saudade. O bolo de cenoura com cobertura de chocolate, o joelho ralado, o beijo carinhoso da mãe antes de dormir.
_A bênção, mãe.
_Deus te abençõe, filha.
Parece uma realidade distante das pessoas hoje, mas trazia algo especial, uma relação de intimidade, cara de família mesmo. Com o tempo meus pais deixaram de ir ao meu quarto dar especial beijo de "boa noite", mas eu passei a ir até eles. Hoje poucas vezes isso acontece e eu sinto falta, sem receios de admitir. Os compromissos do dia-a-dia vão tomando o espaço daquilo que realmente importa. Ontem voltei do trabalho tarde, cansada, era noite já. Minha mãe veio me receber calorosa, me abraçou feliz.
_Quase te liguei hoje, filha, só pra dizer que te amo, de tanta saudade! Mas não quis incomodar seu trabalho.
Adoraria o incômodo.
As paqueras, os bilhetinhos em sala de aula, as cabaninhas feitas com lençol no meio da sala, os kinder ovo de 1 real, o chocolate Surpresa com desenhos de bichinhos, a tigela de sucrilhos com leite, as roupas e cabelos ridículos que as mães insistiam em nos fazer usar, os gibis da turma da mônica, es episódios de Jaspion e Power Rangers, Ursinhos Carinhosos e o Xou da Xuxa com o Praga e o Dengue.
Doce inocência. Doce como o gosto de amora madura, bem roxa, depois de ter passado por outras tantas cores. O sol faz com que uma infrutecência tão pequena transforme-se gradativamente, passando do branco ao verde, do verde ao rosa, do rosa ao vermelho, do vermelho ao roxo e do roxo ao preto. Comida com sol. Bom é saber que existem estímulos que também nos transformam e nos amadurecem com o tempo. Ser criança sempre não deve ser tão bom assim. Levar puxão de orelha, ficar de castigo, usar gel no cabelo, ter tarefa de escola todos os dias e comer salada sempre que mandam... Para cada tempo, sua conveniência.
Hoje convém escrever, aprender, experimentar, sentir, conhecer, renovar, esquecer. Convém decidir. Não, talvez isso ainda não convenha.
Hoje, convém ser eu, simplesmente eu. Com meus medos e erros, limites e desejos. E isso eu não posso deixar para viver depois.
A vida chama-se Agora.