sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Artigo indefinido, feminino, singular


Manual

Ela gosta daquele tipo de cara que anda meio torto sabe? Diferente de todo mundo, que anda meio imponente e ao mesmo tempo engraçado. Que tem características marcantes. Pode crer, escuta o que eu tô falando. Ela gosta do tipo de cara que ninguém gosta. Ou que inicialmente é o tipo de pessoa que chega e todo mundo nota. Mas nota negativamente. O cara que chama a atenção por ser estranho. É, com certeza. Gosta de caras com aparência de sujo. Com aparência de quem bate nela. E talvez atá bata. Casados? Só se largarem da mulher pra ficar com ela. Não, sexo quase nunca. Pois é. Enrustona. Mas é tática. Sei lá, eu nunca consegui. Mas deve ter alguma coisa, porque conheço uns 2 ou 3 que não esqueceram. Ela gosta de caras talentosos. É, tem que ter talento pra alguma coisa. Mas muito talento mesmo... pode ser pra qualquer coisa: sexo, música, letras, cantadas, esportes, dança, desenho, sinuca, artesanato, direção, fotografia, filosofia, geografia, até pra física, eu acho. E tem que ser feio. Mas aquele feio que todas as mulheres gostam. Não, pode ser bonito também. E tem que ser aquele bonito que todos os homens gostam. É, meio tiete né? Mas ela nem paparica não. Tiete que ninguém percebe.
Ah, o principal, tem que ser alguém que não goste dela. Ou que não aparente gostar. Só aparente de vez em quando. É, não pode dar bandeira. Pode sumir inicialmente. Mas nunca mais de 4 dias. Senão vai virar caso. E caso é foda, não pode ter ciúme e vai ter que dividir. Ah, nunca ligue todo dia. Se ligar sempre tem que brigar pelo menos alguns dias. É. Pra não enjoar. E tem que ter ciúme. Porque ela gosta de provocar ciúme. Mas não um ciúme doentio, porque aí ela te larga. Não, ela é simples. Quer dizer, ela diz que é simples. Eu acho ela complicada pra caralho. Mas não fala que eu falei não. Não, pode até falar. Ela vai fingir que não vai ficar bolada. Ah, isso é outra coisa importante. Ela finge que não fica bolada. Mas ela fica. Por qualquer coisa. Sei lá, ela lê uns livrinhos libertários e acha que tem que ser assim... um esqueminha " liberdade pra dentro da cabeça" ou " faça o que tu queres que há de ser tudo da lei ", "amor só dura em liberdade, o ciúme é só vaidade ", umas porras dessa. E é. Calma. Bom, aparentemente é, mas ela te joga na cara quando você estiver na merda que na verdade não é. Ela é ciumenta. Mas não aparenta. Ciumenta que ninguém nota. e se vinga. E você nota. Mas então, não fala que eu falei não, senão ela vai fazer discurso. É, ela discursa. Discursa bem. Dá vontade de interromper o discurso e comê-la. Pode até tentar. às vezes dá certo, mas tem que ser na hora certa. Você terá que perceber a importância que ela dá ao discurso. Não. Ela não é bonita. Quer dizer, é diferente, é meio charme. Ah, ela é bonita sim. Ela é linda. Mas se olhar muito ela fica feia. Não dá pra explicar. Ela gosta que falem que ela é bonita. Mas não muito senão ela não vai se interessar por você. Nunca fale de primeira. Ah, faça aquele esquema de fingir que não gosta e de vez em quando fale que ela é linda. É. Pra agradar, sabe? Ah, e cuidado com a cara de solidariedade dela. Se você elogiá-la e ela fizer cara de solidariedade, você se fudeu. É uma carinha assim com as sombrancelhas pra dentro e um sorrisinho de lábio. É sinal de que ela tem pena de você, e nem fudendo ela te dará um beijo. Não sei, quando ela tá gostando dá pra saber. Mas dá pra confundir também. É, linguagem corporal não funciona com ela. Já teve gente que se deu mal. E teve gente que deixou de se dar bem. Assim como? De malandro? É. Acho que sim. Mas depende. Tem vários tipos de malandro. Canalha bonzinho, sabe como é? É... acho que é esse o estilo. Ela? Sei lá... Uma porra louca dessas aí.
Pode deixar... qualquer dia eu te apresento.

Expectativas.

Eu não sou quem você quer. Embora eu saiba que quem você quer, é exatamente como sou.
E o que eu sou não passa de máscara,
de mágoa.


Ana Cecilia

mais textos da Ana:

indefinida.blogspot.com


quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Curtas

Todo mundo beleza

O Bar David Boa Club está mesmo uma beleza. Conta agora com atrações interessantíssimas de gogogay boys cheios de saúde e esbanjando muita fofura e sensualidade. Vestidos em sunguinhas vermelhas e com aquela barbinha malandra por fazer, eles são colocadíssimos! A diversão fica por conta do streap tease, que é repetido quantas vezes for necessário. Depende de quantas vodkas se bebe antes. Tem gente que não aguenta tanta emoção e dorme no canto do bar.
Quero um gogordinho boy ponto
E na palma da mão?!


Páginas da Vida

O diário de uma nerd tarada causa diversão e surpresa a quem precisar. A relíquia traz histórias de uma criança doente, insana e profundamente detalhista, que descrevia com minúcia aspectos sócio-esportivo-reigiosos da época. A garota narra histórias de sedução aos 11 anos de idade, além transcrever todos os resultados de todos os jogos de todos os campeonatos dos quais seu time do coração, Palmeiras, participava. Suspeita-se de que exista algum tipo de parentesco entre a estranha garota e Diogo Mainardi, já que ela, declara-se claramente defensora da Rede Globo, da Revista Veja e do Padre Marcelo Rossi.

"[...]ficamos papeando na frente do shopping. O mais legal é que eu e a Mê fomos super paqueradas! Teve até um cara de óculos escuro que estava me olhando e eu não percebi e cruzei as pernas e passei a mão sobre a coxa assim, num ato bem sexy, mas fiz isso tudo sem perceber que ele estava me olhando. Quando eu vi, o rapaz estava de boca aberta e levantando os óculos para me ver melhor!" *

*É de causar excitamento em qualquer um, não? A garota tinha 12 anos, pô!

"[...] assisti ao último capítulo de Hilda Furacão (não é a toa que a Rede Globo é a líder de audiência, todas as revistas que falavam sobre o final da série documentavam que o Malthus iria seguir a carreira religiosa e que Hilda iria viver numa fazendo, tudo porque iriam se desencontrar quando fossem fugir juntos, e eles não iriam ficar juntos. Eles se desencontraram mesmo, mas Malthus por um motivo foi preso e Hilda foi ao Rio. Depois que Malthus saiu da prisão ele foi ao Rio e os pombinhos se encontraram de novo e ficaram juntos, chorei de alegria!) Vou dormir hiperfeliz!" **

**Globo e você, tudo a ver.

"[...]comprei o CD do Padre Marcelo Rossi (nunca falei dele, mas ele é um padre que está revolucionando a Igreja Católica. Ele rezava a missa numa igreja normal e o nº de pessoas que assistiam à missa dele foi crescendo e a igreja ficou pequena, então mudou para um lugar maior, ficou pequeno, mudou-se novamente para outro lugar, desta vez um pavilhão com 25 mil m² e ele leva 70 mil pessoas para as suas missas! Até excursões argentinas já vão para o santuário. Imagine que o pavilhão lota e ainda ficam no mínimo 15 mil pessoas do lado de fora! Também, pudera, o padre, que é corinthiano, é uma pessoa ótima.)***

***Atente-se ao detalhe de que tudo isso era apenas um parênteses.
> Para quem esta pequena insana está contando essa história toda?
> Veja a riqueza de detalhes em números e estatísticas!
> Que vocabulário é esse, meu Deus? "Também, pudera"?! Que criança escreveria algo com esse linguajar... ô dó.
> Mas que que tem o padre ser corinthiano?


Nova novela

Manoel Carlos que se cuide. Vem aí, A decisão de Clarinha. Esperemos que ela não venha acompanhada do fantasma da Nanda e seja repleta de femilinidade.


Ética

É só nos bares de Londrina mesmo. O garçom serve a porção de batatas ao óleo e espera o cliente comer a primeira. Em seguida, serve-se também. Afinal, servir-se antes da clientela seria falta de ética, não é? E se você gosta de uvas passas, cuidado. Elas também podem desaparecer do seu prato quando o garçom vier atendê-lo.


Dicas

A Pousada Bichelenga oferece as melhores acomodações para você que busca ver o arco-íris de uma posição bem colocada. Se a sua opção é por uma vida mais alternativa e natural, fique esperto: o Hotel Asalém ou a Pousada Suarão não cheiram nada bem. Consulte o Guia 4 Rodas e boa diversão!

Acelerado

Ele acompanhou os outros dois camaradas, queria participar do crime. Não como parte atuante, mas ser cúmplice naquele momento lhe trazia uma sensação absolutamente tentadora. Era um misto de medo, um pânico estimulante, adrenalina e ousadia, um sabor amargo, entorpecente, que adormecia e acelerava.
Entraram na última e apertada divisória do banheiro. O suor corria pela testa e o calor parecia três vezes mais intenso do que de fato era. O coração disparado, as mãos trêmulas. Nunca havia feito nada parecido. Ao contrário, ele sempre condenara tais práticas. E de uma certa forma não tinha mudado a maneira de pensar, continuava acreditando que aquilo não parecia certo, que era agressivo, criminoso. Não se tratava somente de uma culpa cristã ou valores sociais impostos ao longo de sua vida toda, mas era uma questão de conceitos pessoais mesmo, de esclarecimento, conhecimento - ainda que somente teórico. Mas havia um problema: ele sempre fora empírico demais, e a experiência valia-lhe muito.
Ali, a oportunidade da vivência e do momento lhe sorriam e cobiçavam-no. Os dois amigos agacharam sobre a tampa do vaso e depositaram a areia fina e branca com cuidado. Como farinha, leve e suave, espalhava-se por sobre a superfície. Ele observava, segurando a porta. Os olhos brilhavam. Ouvia as batidas frenéticas que vinham das caixas de som da festa, onde as pessoas dançavam enlouquecidas e corriam de um lado para o outro. E bebiam, e cantavam, e beijavam, e fumavam, e dançavam mais. Tudo num ritmo alucinante embalado pelos djs e pelos espetáculos de luz e música que aconteciam numa noite em que as estrelas brilhavam mais forte do que em qualquer outra.
Lá dentro, tudo pronto, alinhado. Uma nota de dez reais foi o canal. Primeiro um camarada, depois o outro... e logo chegaria a sua vez. Sentia o corpo arrepiar de medo e vontade. Teria coragem? Como um espião, um intruso, refém da situação em que vivia, ele buscava um olhar criterioso, como de quem vê as coisas de fora. Mas não adiantava, ele já estava envolvido, não podia voltar atrás.
Precisavam ser breves. Ao redor, podia-se escutar as reclamações de quem precisava usar o banheiro, os comentários ríspidos e apurados, a conversa dos seguranças que a todo momento rondavam por ali. Apesar de tudo ter de ser muito rápido, os minutos lhe pareceram lentos e era como se o tempo quisesse parar por um instante. Como se estivesse assistindo a um filme, projetou o que via para um mundo imaginário, uma ficção como tantas outras que já vira. Lembrou-se dos longas que já tinha assistido a respeito, os documentários. Pensou nas conversas, palestras, aulas. Refletiu até mesmo sobre suas próprias condições, comportamentos, sobre filosofia e religião. O que estava fazendo ali? O que queria com aquilo? Seria bom? O que pensariam dele? E se fosse pego, descoberto? Questionamentos e mais questionamentos que de um certo modo o perturbavam. Um cotucão lhe voltou a atenção para a realidade, que de tão alucinada parecia ser fantasia:
_Vai aí?
A pergunta lhe incomodou, não sabia o que responder. O amigo estendia a nota de dez reais, como na expectativa. Frio na barriga. Sentiu o sangue ferver pelas veias, o rosto fumegando, corado, quente. Correu um sorriso tímido e nervoso no canto da boca:
_Estou de boa. Agora não.
Alguma coisa lhe paralizou. Não era medo, não se tratava desse tipo de covardia. Não era preconceito nem excesso de zelo. Não foi a reputação que lhe pesou nem falta de vontade ou curiosidade. Foi algo maior, uma sensação que não soube explicar. Era como se o olhar do amigo tivesse o inibido, sentiu algo estranho. Não, não era o momento. Talvez mais tarde, a festa estava só começando e com certeza a noite teria muito a revelar. E assim ele queria ficar por longas horas. Acelerado.

O dia da Independência

O 7 de setembro é comemorado nacionalmente por marcar uma importante data da história brasileira. A independência é comemorada entre desfiles, paradas e homenagens patrióticas por todo o país. Ainda que se trate somente de uma independência política e não econômica, é independência. Quem nunca quis ao menos uma vez na vida ser independente? Livre de qualquer coisa que cause o mínimo incômodo ou aprisionamento? Ser liberto das pressões do dia-a-dia, do desconforto econômico, do zelo excessivo familiar (eufemismo para pegação no pé), de um sentimento que nos faz mal, livre de tarefas chatas, livre de pessoas que de alguma forma exercem alguma liderança sobre nós e nos intimidam, livre de doenças (gases aprisionam, descobri isso com duas amigas que sofrem desse mal. Acho que ela querem ser independentes dos gases), enfim. Ser independente. Um sonho de muitos, concretização de poucos.
Eu mesma por muitas vezes quis ser independente. Ainda quero, uma boa briga em família sempre reaviva meu desejo. Cobranças de pai e mãe também são ótimos estimulantes. É só rolar um barraco que logo quero pegar minhas malinhas e ir embora para o primeiro hotel que encontrar. Claro, um que me abrigue bem, tenha televisão, cama confortável e um bom café da manhã. Regalias a que estou acostumada no meu lar doce lar. Mas quando me vem o desejo de independência e junto com ele todo esse pacote de mimos desnecessários, lembro que o sonho duraria apenas uma noite...duas, no máximo. Afinal, pra se ter essa independência social, necessita-se da financeira também. Mas este já é um outro fator que não vale a pena ser explorado agora, pois entraríamos em outros méritos, bem mais profundos, suponho. Sempre chego a conclusão de que só quero ser independente enquanto não o sou. Se o fosse, talvez não quisesse sair de casa e etc. Basta observar como fazem os amigos que optaram por isso. As dificuldades não se restringem ao aspecto financeiro, mas tangem principalmente ao lado afetivo-emocional. Ok, não desviemos o assunto.
Neste ano tive também meu dia da independência. O feriado se fez diferente pra mim uma ez que me as pessoas decidiram me fazer livre. Livre de hipocrisias, livre de mentiras, de histórias inventadas, aumentadas, de calúnias, de julgamentos, fofocas. Ser alvo de coisas desse tipo sempre ferem. Mas fizeram o favor de jogar-me na cara algumas coisas e ter de decidir, optar por um caminho. Não era o que eu queria, eu estava bem. Então, decidiram por mim. Não acredito que tenha sido a melhor escolha, os caminhos que eu trilho só Deus e eu posso julgar. E se Ele não me condena, que dirá um reles mortal e pecador assim como eu.
O fruto da escolha de uma outra pessoa refletiu na minha vida, e é difícil aceitar e conceber isso. Conformar-se. Tiraram de mim uma das coisas mais preciosas que tinha, que me trazia paz, que me trazia alívio, o que me era gratificante. Levaram de mim sonhos, amores. Não é maneira de falar, eu construí uma vida por mais de cinco anos e retiraram o valor que havia sido conferido a aquilo tudo. Mas tudo bem, acham que é certo, que é preferível me ver afastada do que fazendo algo bom para outras pessoas. Amém para eles. A vida vai seguir seu rumo e tudo tem o seu lugar. Perde-se algumas coisas para se encontrar outras. Faz parte do processo e ninguém dirá que eu não amei, que não fiz a minha parte, que eu abandonei aquilo a que sempre me dediquei. Eu vou seguir com meus conceitos, com meu brilho, com meus pensamentos, com minhas retas intenções. E com a minha independência agora, o que faz toda a diferença. E o feriado foi comemorado em grandicíssimo estilo, não se pode contestar. Maringá que o diga.