INVERNÁCULO
Esta língua não é minha,
qualquer um percebe.
Quem sabe maldigo mentiras,
vai ver que só minto verdades.
Assim me falo, eu, mínima,
quem sabe, eu sinto, mal sabe.
Esta não é minha língua.
A língua que eu falo trava
uma canção longínqua,
a voz, além, nem palavra.
O dialeto que se usa
à margem esquerda da frase,
eis a fala que me lusa,
eu, meio, eu dentro, eu, quase.
°
desastre de uma idéia
só o durante dura
aquilo que o dia adiante adia
estranhas formas assume a vida
quando eu como tudo que me convida
e coisa alguma me sacia
formas estranhas assume a fome
quando o dia é desordem
e meu sonho dorme
fome da china fome da índia
fome que ainda não tomou cor
essa fúria que quer
seja lá o que for
°
leite, leitura,
letras, literatura,
tudo o que passa,
tudo o que dura
tudo o que duramente passa
tudo o que passageiramente dura
tudo, tudo, tudo,
não passa de caricatura
de você, minha amargura
de ver que viver não tem cura
°
misto de tédio e mistério
meio dia / meio termo
incerto ver neste inverno
medo que a noite tem
que o dia acorde mais cedo
e seja eterno o amanhecer
°
nunca sei ao certo
se sou um menino de dúvidas
ou um homem de fé
certezas o vento leva
só dúvidas ficam de pé
Do livro O ex-estranho
Retirado do site Kamiquase
quarta-feira, 28 de novembro de 2007
Paulo Leminski
terça-feira, 20 de novembro de 2007
Scotland Yard
Caso 23 - O caso das tequilas envenenadas
Todos os anos acontece na cidade londrina um evento destinado ao público alternativo da região. A Cow´s Party é uma festa diferenciada por trazer sempre um tema específico, sugerindo uma vestimenta a caráter. O Halloween estava próximo e Karen Ió-ió, organizadora do evento, lançou o tema da Cow do ano: Elvira, queen of the Dark.
Chamilla Vioulet, Mary Huanna, Dialbert Camps e Galluci Albert eram presenças confirmadas na lista vip de Ió-ió, mas algo estava incomodando a organizadora. Dois dias antes ela soubera que Minxeh Liar, uma inimizade antiga, reconhecidamente caloteira e mal caráter, estava de volta à cidade, após uma temporada pela Europa, e provavelmente iria ao evento.
Chamilla não estava muito preocupada, apesar da má fama de Liar. Pensava mais em sua saúde, já que era diabética. Mary Huanna já pensava em fazer uma reportagem para a coluna social da cidade, mas pelas más condições de saúde, não estava muito animada para a festa. Dialbert e Galluci tiveram um desafeto com Minxeh Liar e queriam ignorá-la se encontrassem.
A Rainha das Trevas estava mesmo solta. Ao final da festa, Ió-Ió acionou imediatamente a Scotland Yard para averiguar os estranhos ocorridos na boate onde acontecera a festa. Fora encontrado um jovem em frente ao local do evento, desacordado. Relen Runt, estudante de pedagogia, encontrava-se dentro do banheiro da boate, trancada e com mal estar. Chamilla e Camps estavam em estranho estado de delírio nos sofás de entrada, sem forças e balbuciando dizeres indecifráveis. A diabética parecia ainda mais alucinada, com a sandália presa somente ao tornozelo e tendo crises de nervosismo, aos berros. O bar man fora questionado e recordara-se de ter vendido tequilas à noite toda para duas mulheres feias.
Holmes precisa descobrir: A) O causador dos atentados B) O motivo C) a substância contida nas tequilas
O jogo já começou!
Todos os anos acontece na cidade londrina um evento destinado ao público alternativo da região. A Cow´s Party é uma festa diferenciada por trazer sempre um tema específico, sugerindo uma vestimenta a caráter. O Halloween estava próximo e Karen Ió-ió, organizadora do evento, lançou o tema da Cow do ano: Elvira, queen of the Dark.
Chamilla Vioulet, Mary Huanna, Dialbert Camps e Galluci Albert eram presenças confirmadas na lista vip de Ió-ió, mas algo estava incomodando a organizadora. Dois dias antes ela soubera que Minxeh Liar, uma inimizade antiga, reconhecidamente caloteira e mal caráter, estava de volta à cidade, após uma temporada pela Europa, e provavelmente iria ao evento.
Chamilla não estava muito preocupada, apesar da má fama de Liar. Pensava mais em sua saúde, já que era diabética. Mary Huanna já pensava em fazer uma reportagem para a coluna social da cidade, mas pelas más condições de saúde, não estava muito animada para a festa. Dialbert e Galluci tiveram um desafeto com Minxeh Liar e queriam ignorá-la se encontrassem.
A Rainha das Trevas estava mesmo solta. Ao final da festa, Ió-Ió acionou imediatamente a Scotland Yard para averiguar os estranhos ocorridos na boate onde acontecera a festa. Fora encontrado um jovem em frente ao local do evento, desacordado. Relen Runt, estudante de pedagogia, encontrava-se dentro do banheiro da boate, trancada e com mal estar. Chamilla e Camps estavam em estranho estado de delírio nos sofás de entrada, sem forças e balbuciando dizeres indecifráveis. A diabética parecia ainda mais alucinada, com a sandália presa somente ao tornozelo e tendo crises de nervosismo, aos berros. O bar man fora questionado e recordara-se de ter vendido tequilas à noite toda para duas mulheres feias.
Holmes precisa descobrir: A) O causador dos atentados B) O motivo C) a substância contida nas tequilas
O jogo já começou!
Auxílio 0800
Pra ajudar não precisa de motivo
Ajuda-se, simplesmente.
E se cobrar o esforço depois, de nada valeu.
É, tem gente de todo o tipo.
Tem gente que faz por responsabilidade. Age porque a consciência exige;
Tem gente que faz por preocupação. Age porque tem sentimentos que insitam;
Tem gente que faz pra se aparecer. Age pra dar pinta de boa gente;
Tem gente que faz pra desaparecer. Age pra que ninguém perceba;
Tem gente que faz pra surpreender. Age por impulso;
Tem gente que faz, faz, faz e nada faz.
E tem gente que não faz.
Diga lá uma coisa: O cara vai e fala que te ama num dia. Três dias antes, deixou você passar mal num sofá de boate até que a sorte resolvesse que destino te daria.
Que tipo de "amor" é esse?
O duvidoso, talvez.
Diga-me lá outra coisa: A menina vai pra uma balada em outra cidade pra curtir a festa e um desconhecido passa mal. Ela não tem responsabilidade nenhuma para com ele, mas mesmo assim permanece ao seu lado até que a situação mude.
Por qual razão ela faz isso?
Não importa, deve-se apenas gratidão ao ato.
Diga-me lá mais uma coisa: A moça é sempre rodeada de muitas pessoas que se dizem amigos, mas na hora que mais precisa, eles se omitem. Resta-lhe uma pessoa, e algumas outras inesperadas aparecem.
Que lição se pode retirar?
Prova de amizade.
Se a moça e o rapaz foram envenenados, isso não se pode afirmar. Se foram sacaneados, isso sim.
Já não importa mais, é o de menos.
A Festa da "Elvira, rainha das Trevas" iluminou a visão que eu tinha de algumas coisas, pessoas. Alertou para outras.
Me fez perceber que falar, pouco significa. Mais vale mesmo é a atitude, demonstração de caráter, e isso varia de um para outro, surge em quem não se espera também.
Ela foi a melhor coisa da minha noite.
Eu fui a pior coisa da noite dela.
Desculpe.
Quero ser melhor da próxima vez, e não quero ninguém "under my umbrella".
Desde sempre, obrigada a você que, de tão Clara, me tirou daquele lugar escuro.
Ajuda-se, simplesmente.
E se cobrar o esforço depois, de nada valeu.
É, tem gente de todo o tipo.
Tem gente que faz por responsabilidade. Age porque a consciência exige;
Tem gente que faz por preocupação. Age porque tem sentimentos que insitam;
Tem gente que faz pra se aparecer. Age pra dar pinta de boa gente;
Tem gente que faz pra desaparecer. Age pra que ninguém perceba;
Tem gente que faz pra surpreender. Age por impulso;
Tem gente que faz, faz, faz e nada faz.
E tem gente que não faz.
Diga lá uma coisa: O cara vai e fala que te ama num dia. Três dias antes, deixou você passar mal num sofá de boate até que a sorte resolvesse que destino te daria.
Que tipo de "amor" é esse?
O duvidoso, talvez.
Diga-me lá outra coisa: A menina vai pra uma balada em outra cidade pra curtir a festa e um desconhecido passa mal. Ela não tem responsabilidade nenhuma para com ele, mas mesmo assim permanece ao seu lado até que a situação mude.
Por qual razão ela faz isso?
Não importa, deve-se apenas gratidão ao ato.
Diga-me lá mais uma coisa: A moça é sempre rodeada de muitas pessoas que se dizem amigos, mas na hora que mais precisa, eles se omitem. Resta-lhe uma pessoa, e algumas outras inesperadas aparecem.
Que lição se pode retirar?
Prova de amizade.
Se a moça e o rapaz foram envenenados, isso não se pode afirmar. Se foram sacaneados, isso sim.
Já não importa mais, é o de menos.
A Festa da "Elvira, rainha das Trevas" iluminou a visão que eu tinha de algumas coisas, pessoas. Alertou para outras.
Me fez perceber que falar, pouco significa. Mais vale mesmo é a atitude, demonstração de caráter, e isso varia de um para outro, surge em quem não se espera também.
Ela foi a melhor coisa da minha noite.
Eu fui a pior coisa da noite dela.
Desculpe.
Quero ser melhor da próxima vez, e não quero ninguém "under my umbrella".
Desde sempre, obrigada a você que, de tão Clara, me tirou daquele lugar escuro.
Alegres olhos tristes
Alegres olhos tristes
Alegres porque têm a simples capacidade de sonhar
Tristes porque não sabem que são fortes o suficiente para atingir o que querem
Os olhos tristes acham que significam pouco, quase nada
Acreditam que o gênio forte e decidido só serve para se desiludir e se frustrar com a vida
Mal sabem os lindos olhos tristes que é justamente essa personalidade firme que encanta os fracos que os conhecem
Os alegres olhos estão sempre a observar, alertas, atentos ao que precisar
Sabem que o simples ato de observação pode mudar uma situação, uma noite, uma vida
Os olhos alegres ficam de espreita, apenas aguardando uma deixa para participar do trocadilho e da piada
Mal sabem eles que de tão alegres, fazem os outros serem mais alegres ainda.
E quando os alegres olhos fogem e deixam os olhos tristes sozinhos
Alguma coisa acontece, se entristece
Vem o medo, a carência, a vontade de sumir
Vem a sensação de incapacidade, de desafeto, o desejo de desistir
Nada tem importância, Nada tem valor.
É bom que saiba
que quando os alegres olhos voltam
tudo parece ser mais interessante, mais inteligente, criativo.
E que se reconhece o quanto eles são queridos
Já provaram sua amizade, seu potencial de decisão e de cumplicidade
E isso jamais será esquecido e pra sempre retribuído
Só não chore por pensamentos vãos, alegres olhos
Deixe que os tristes partam de vez, sem volta
Mas se acaso não for possível e os olhos tristes voltarem
Que eles saibam que nunca estarão desamparados por esses tantos outros olhos que lhes gostam
Alegres porque têm a simples capacidade de sonhar
Tristes porque não sabem que são fortes o suficiente para atingir o que querem
Os olhos tristes acham que significam pouco, quase nada
Acreditam que o gênio forte e decidido só serve para se desiludir e se frustrar com a vida
Mal sabem os lindos olhos tristes que é justamente essa personalidade firme que encanta os fracos que os conhecem
Os alegres olhos estão sempre a observar, alertas, atentos ao que precisar
Sabem que o simples ato de observação pode mudar uma situação, uma noite, uma vida
Os olhos alegres ficam de espreita, apenas aguardando uma deixa para participar do trocadilho e da piada
Mal sabem eles que de tão alegres, fazem os outros serem mais alegres ainda.
E quando os alegres olhos fogem e deixam os olhos tristes sozinhos
Alguma coisa acontece, se entristece
Vem o medo, a carência, a vontade de sumir
Vem a sensação de incapacidade, de desafeto, o desejo de desistir
Nada tem importância, Nada tem valor.
É bom que saiba
que quando os alegres olhos voltam
tudo parece ser mais interessante, mais inteligente, criativo.
E que se reconhece o quanto eles são queridos
Já provaram sua amizade, seu potencial de decisão e de cumplicidade
E isso jamais será esquecido e pra sempre retribuído
Só não chore por pensamentos vãos, alegres olhos
Deixe que os tristes partam de vez, sem volta
Mas se acaso não for possível e os olhos tristes voltarem
Que eles saibam que nunca estarão desamparados por esses tantos outros olhos que lhes gostam
segunda-feira, 5 de novembro de 2007
ausente
quero dizer, não sei o que
quero lembrar, quero entender, quero sorrir
sorrir sem passar em branco
sorrir e subir até a vida
quero entrar
em mim
me prender à cada frase
à cada ato
me observar observando voar meus pensamentos
te observar se construindo
as palavras se cruzando, se olhando
flertando, fazendo amor e desencontro
me fazendo
descansando
sem motivo
quero me encher
só do que é bom
e que o que é bom tenha um pingo de mim
só queria estar menos vazia
quero lembrar, quero entender, quero sorrir
sorrir sem passar em branco
sorrir e subir até a vida
quero entrar
em mim
me prender à cada frase
à cada ato
me observar observando voar meus pensamentos
te observar se construindo
as palavras se cruzando, se olhando
flertando, fazendo amor e desencontro
me fazendo
descansando
sem motivo
quero me encher
só do que é bom
e que o que é bom tenha um pingo de mim
só queria estar menos vazia
quinta-feira, 1 de novembro de 2007
Crise dos 21
Primeiramente, quero me desculpar. Por fazer muitas vezes desse blog um diário, um confessionário. Sei bem que já se foram os dias em que a criança boba relatava a vida em páginas de um livro que de tão detalhista, chegava a ser cômico. Mas talvez esse seja um dos únicos espaços em que me encorajo a falar sobre o que sinto, para os outros e para mim mesma. E a cada post, fica um trechozinho da minha pobre, ò pobre, vida. E viva a marmota dramática.
Eu quero escrever sobre alguma coisa, mas não sei exatamente o quê. Quero. Mas o quê?! Sabe quando algo fica te incomodando, aquela coisa chata, perturbante? Aquele sujeito inconveniente que fica cutucando o seu ombro inúmeras vezes até que você o atenda? Aquela criança birrenta que puxa a blusa da mãe aos berros, até que ela o pegue no colo? Então, é mais ou menos por aí.
Hoje sinto como se as palavras fossem como a criança chorona me perturbando para que lhe atenda.Talvez isso aconteça como uma necessidade do meu corpo, exigindo expressar-se de alguma maneira. E como eu muitas vezes não compreendo, ele mesmo me perturba, até que eu coloque para fora o que tenho sentido. Sou assim, tem gente que consegue fazer segredo das próprias emoções, eu não. Eu tento, finjo, forjo caras e bocas para demonstrar uma outra realidade, uma que talvez não me aborreça tanto.
Eu não sou hipócrita. Não se trata de falsidade. Esse "forjar" é um mero desejo de criar um mundo mais cheio de brilho, de luzes, de encanto. Ora, enfeitar a vida não é crime. Se na maioria das vezes sorrio é uma tentativa de fazer as coisas melhores, o pessimismo me soa muito entediante.
Claro, ninguém consegue ficar bem sempre. Hoje, por exemplo. Agora. Choro, mas nem sei por que. Meu dia não foi ruim, momentos agradáveis com amigos aconteceram também, risadas e mais risadas. Não tenho de quê reclamar. O que acontece então?
Apenas sinto que preciso deixar que essas lágrimas tão impertinentes escorram de uma vez. São lágrimas de alívio, lágrimas de saudade, lágrimas de cansaço, de carência, de coragem. Eu preciso ser corajosa o suficiente pra chorar e encarar que minha realidade mudou, a minha e a dos outros.
Não sei se é algo bom, ruim, não gosto de classificações, comparações. O antes, o agora, o que era, o que é. Apenas permito que aconteça minha epifania e ela me conduza a alguma conclusão, me livre de minhas confusões. Mas nem sempre isso acontece.
Talvez esse seja o meu maior medo, aquilo que me leva a chorar e revelar minha fragilidade hoje. Esse conflito, essa visão turva de um futuro incerto e que eu insisto em tentar me convencer de que não me preocupo com ele. Mentira, quem não pensa no amanhã em momento algum é porque não se projeta em nada, não aspira a nada, não tem ambições, planos. Eu tenho, e muitos! Mas tudo anda tão obscuro que não sei onde vai parar, onde vou parar.
Dia desses, uma amiga muito querida casou. Casou assim, de supetão. Não estava nos planos dela, tenho certeza. Menina nova ainda, cheia de sonhos. De repente, a vida mudou completamente. Não que o casamento seja algo mal, mas tenho certeza de que muitos projetos pararam na assinatura de matrimônio no civil. Sei lá o que se passa na cabeça de alguém nessas horas, não quero descobrir tão cedo também.
Agora, ouvindo música e escrevendo, descubro que choro por essa amiga. Por lembrar de tantos momentos que vivenciamos e que jamais voltarão, hoje ela tem uma outra vida. Saudade dói demais.
Mas é bom observar também o quanto eu mudei. Sinto muita falta do que se passou, da menina que cantava nas missas e pregava nos grupos de oração. Talvez hoje eu esteja triste por não me desapegar de uma experiência muito rica, gratificante, que me valeu 5 anos. Tempo de crescimento, de fé, de conhecer gente que vai ficar pra sempre marcada. Pensar que as lições ficaram mas a vivência passou, me abala! E pensar que esse novo caminho que venho trilhando é encantador, instigante e inconstante, me abala mais ainda! Crise dos 21, acho. Eu não acreditava nisso, achava besteira. É besteira, idiotice! Mas acontece, de fato. Por ora, não sei pra onde seguir, que rumo tomar. Estou inquieta, queria emudecer, desaparecer da vista de algumas pessoas, ficar no meu cantinho, eu e Deus, como sempre foi, e deixar o tempo passar. As simples palavras daquela pessoa hoje me bastariam, uma carta, um email, um bilhete. O abraço da minha mãe hoje me bastaria. O canto e a gargalhada dessa amiga casada me bastaria. Uma música apenas hoje me bastaria, mas teria que ser aquela, a única que me faria sentir melhor. Como nada disso se tem essa noite, algumas lágrimas e palavras me bastam. E amanhã tudo volta a ficar bem.
Eu quero escrever sobre alguma coisa, mas não sei exatamente o quê. Quero. Mas o quê?! Sabe quando algo fica te incomodando, aquela coisa chata, perturbante? Aquele sujeito inconveniente que fica cutucando o seu ombro inúmeras vezes até que você o atenda? Aquela criança birrenta que puxa a blusa da mãe aos berros, até que ela o pegue no colo? Então, é mais ou menos por aí.
Hoje sinto como se as palavras fossem como a criança chorona me perturbando para que lhe atenda.Talvez isso aconteça como uma necessidade do meu corpo, exigindo expressar-se de alguma maneira. E como eu muitas vezes não compreendo, ele mesmo me perturba, até que eu coloque para fora o que tenho sentido. Sou assim, tem gente que consegue fazer segredo das próprias emoções, eu não. Eu tento, finjo, forjo caras e bocas para demonstrar uma outra realidade, uma que talvez não me aborreça tanto.
Eu não sou hipócrita. Não se trata de falsidade. Esse "forjar" é um mero desejo de criar um mundo mais cheio de brilho, de luzes, de encanto. Ora, enfeitar a vida não é crime. Se na maioria das vezes sorrio é uma tentativa de fazer as coisas melhores, o pessimismo me soa muito entediante.
Claro, ninguém consegue ficar bem sempre. Hoje, por exemplo. Agora. Choro, mas nem sei por que. Meu dia não foi ruim, momentos agradáveis com amigos aconteceram também, risadas e mais risadas. Não tenho de quê reclamar. O que acontece então?
Apenas sinto que preciso deixar que essas lágrimas tão impertinentes escorram de uma vez. São lágrimas de alívio, lágrimas de saudade, lágrimas de cansaço, de carência, de coragem. Eu preciso ser corajosa o suficiente pra chorar e encarar que minha realidade mudou, a minha e a dos outros.
Não sei se é algo bom, ruim, não gosto de classificações, comparações. O antes, o agora, o que era, o que é. Apenas permito que aconteça minha epifania e ela me conduza a alguma conclusão, me livre de minhas confusões. Mas nem sempre isso acontece.
Talvez esse seja o meu maior medo, aquilo que me leva a chorar e revelar minha fragilidade hoje. Esse conflito, essa visão turva de um futuro incerto e que eu insisto em tentar me convencer de que não me preocupo com ele. Mentira, quem não pensa no amanhã em momento algum é porque não se projeta em nada, não aspira a nada, não tem ambições, planos. Eu tenho, e muitos! Mas tudo anda tão obscuro que não sei onde vai parar, onde vou parar.
Dia desses, uma amiga muito querida casou. Casou assim, de supetão. Não estava nos planos dela, tenho certeza. Menina nova ainda, cheia de sonhos. De repente, a vida mudou completamente. Não que o casamento seja algo mal, mas tenho certeza de que muitos projetos pararam na assinatura de matrimônio no civil. Sei lá o que se passa na cabeça de alguém nessas horas, não quero descobrir tão cedo também.
Agora, ouvindo música e escrevendo, descubro que choro por essa amiga. Por lembrar de tantos momentos que vivenciamos e que jamais voltarão, hoje ela tem uma outra vida. Saudade dói demais.
Mas é bom observar também o quanto eu mudei. Sinto muita falta do que se passou, da menina que cantava nas missas e pregava nos grupos de oração. Talvez hoje eu esteja triste por não me desapegar de uma experiência muito rica, gratificante, que me valeu 5 anos. Tempo de crescimento, de fé, de conhecer gente que vai ficar pra sempre marcada. Pensar que as lições ficaram mas a vivência passou, me abala! E pensar que esse novo caminho que venho trilhando é encantador, instigante e inconstante, me abala mais ainda! Crise dos 21, acho. Eu não acreditava nisso, achava besteira. É besteira, idiotice! Mas acontece, de fato. Por ora, não sei pra onde seguir, que rumo tomar. Estou inquieta, queria emudecer, desaparecer da vista de algumas pessoas, ficar no meu cantinho, eu e Deus, como sempre foi, e deixar o tempo passar. As simples palavras daquela pessoa hoje me bastariam, uma carta, um email, um bilhete. O abraço da minha mãe hoje me bastaria. O canto e a gargalhada dessa amiga casada me bastaria. Uma música apenas hoje me bastaria, mas teria que ser aquela, a única que me faria sentir melhor. Como nada disso se tem essa noite, algumas lágrimas e palavras me bastam. E amanhã tudo volta a ficar bem.
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