quarta-feira, 2 de julho de 2008

Uma noite no Jota

A vingança – PARTE I



O casal sentou-se na mesa ao lado, a mulher visivelmente abalada, o homem aparentemente calmo. Estava para servir de conselheiro, certamente.

Uma cerveja, uma porção de mandioquinhas. Não, mandióca. No Jota elas recebem acento agudo, sabe-se lá por qual razão. Talvez sejam diferentes das outras, mais fortes, mais fritas, mais duras, mais ocas, mais ócas. Bobagem, deixemos de lado a famosa mandióca do Jota.

Após o primeiro gole da Boa, e começou o discurso. Sutileza de minha parte. Começou mesmo foi o lamúrio. Muro das Lamentações! E o martírio era meu, na mesa ao lado, tendo que ouvir o drama vivido pela loira desvairada e ainda tendo que “curtir” uma estranha intérprete de Tim Maia chorando “Gostava tanto de você” como trilha sonora ao fundo. Ir ao bar em plena segunda-feira às 18h30min, sozinha, dá nisso. Depressão.

Sem escolha, me aconcheguei para entender a triste história da vizinha de mesa. Estava aflita, batia as mãos sobre a mesa, inquieta.

_Eu vou acabar com a vida daquela gorda! Vou mandar ela pra cadeia! É o que ela merece! Coitada.. não sabe onde meteu o rabinho dela! Brincou com fogo, Marcos, com fogo!

Ditos populares. Apurei os ouvidos para escutar onde aquilo ia parar. Parecia novela do Manoel Carlos. A ilustre colega da mesa ao lado esbravejava, dona de si. Chamava a suposta rival de gorda, velha, louca. Cheguei a pensar que estava se autodescrevendo, mas as mulheres ficam cegas quando estão envolvidas pelo ódio. Estava fazendo esta reflexão, quando outro som me despertou. Pequenos soluços de choro.

Era a segunda parte da história. O momento de fraqueza. O tal Marcos estava lá para aconselhar, mas poderia ser uma estátua. Não lhe restava oportunidades para abrir a boca. E vinha conversa:

_Eu chorei ontem o dia inteiro, Marcos. Você acredita? O dia inteiro! Passei a tarde sentada na privada, trancada no banheiro, chorando – e mais lágrmas. Aquela desgraçada não sabe o que me causou. – pausa para o choro – Mas ela me paga...

E voltava a se enfurecer. Apertava os olhos de raiva. Num breve instante de silêncio, o conselheiro entrou em ação. Era a grande chance de falar algo que ajudasse, então tomou a palavra, confiante:

_Calma... a vingança é um prato que se come frio!

De fato, uma estátua ali seria mais útil. Sem dar ouvidos à preciosidade dita, a mulher abriu a bolsa e começou a remexer no interior. Parecia procurar uma arma, mas retirou apenas o celular. Mulher nervosa quando pega o celular é um perigo. A coisa ia ferver.

_Alô? É a desgraçada que está falando? Olha aqui, sua vagabunda, eu sei que você sabe muito bem quem está falando. Eu só estou ligando pra dizer que eu vou fazer da sua vida um inferno. Você está entendendo? Um inferno! Você tinha um emprego, você tinha uma casa, porque agora eu vou destruir a sua vida! – falava com uma estranha e controlada frieza mesclada à pequenas explosões de excentricidade – Você acabou com 20 anos de união, sua vadia. Você não sabe o que me causou! Só que agora pode andar com os olhos na nuca, na testa, porque eu-vou-fazer-da sua vida-um-inferno. Um inferno. – falava pausadamente – Eu vou mandar você pra cadeia. Está bem? Pra cadeia, que é o seu lugar.

Desligou. De som apenas o Zé Ramalho ao fundo cantando Vida de Gado. Poderia ser vida de corna, na verdade. E o tal Marcos ali, mumificado. Ela sorria, satisfeita. Soltou uma gargalhada desesperada e que estava aparentemente contida. Irônica, na realidade. A vida é uma ironia, já dizia uma querida amiga entre filosóficos e artísticos passos de ballet em frente ao R.U.

A psicopata ria frenéticamente, e eu achei melhor me retirar. E pensar que era só o início da vingança.



A vingança – PARTE II



A partida de sinuca se realizava calmamente entre as duas amigas. Tudo corria muito bem, momento feliz, de confraternização e lazer. Logo pediríamos uma gelada, como de costume, e brindaríamos a qualquer coisa* que nos fizesse bem. .. se algo não nos bloqueasse.

Eis que surge Omar. Omar é grande e tem várias coisas que o “surpriendem” também. Mas tem horas que ele se sente pequeno. Ainda bem, porque ele não tem motivo nenhum pra Ta se achando! Isso é pra poucos.

Pra não haver problemas, colocamos as aliancinhas. Estávamos namorando, não sei com quem, mas estávamos.

Quem mandou Omar querer todas? Vingança é um prato que se come frio.



A vingança – PARTE III


Na mesa de sinuca, o duelo entre dois assíduos frequentadores do bar. Ambos pareciam levemente alterados, talvez alcoolizados, talvez apenas bem humorados. Mal vestidos, barba por fazer, roupas sujas, furadas.

Entre tacadas, erros e acertos, surge a expressão preferida da noite, pronunciada com ênfase:

_Ah, meu amigo, a vingança é um prato que se come frio!

Risadas. E o amigo maltrapilho e com cara de pobrezinho, confirma:

_ La vendetta è una piastra che se mangia il freddo!

Cultura de bar. Riquíssima.
E nói, estudanti di finu tratu, mar sabemu falá brasilero.

Um comentário:

Marie disse...

hahahahahahahhaahahha
esse texto é muito bom!
eu sempre quis comentá-lo, mas sempre soube que não estaria à altura
vc podia fazer mais relatos dos fatos da vida noturna que a gente vive por aí, né?!
isso é uma preciosidade, minha cara!
as suas descrições são tão ricas, babe!
E o Omar é tão primário, babe...
pra brindar só mesmo o que merece, mesmo que não seja pelo comportamento

mas não tem problema, só estou esperando meu prato esfriar!
;)
beijo!