segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

O Fantástico Mundo de Bobby

Tenho assistido a filmes demais. Isso talvez seja um problema. Não para as pessoas normais, mas pra mim é. Para quem sonha demais, é.


Me recordo que, quando criança, um dos meus desenhos preferidos chamava-se O fantástico mundo de Bobby. Talvez eu me identificasse com ele. Garoto esperto, ingenuamente interessante, um sonhador. Constatar que eu, às vésperas de completar 23 anos, seja semelhante, parece constrangedoramente desanimador.
Mas de que posso queixar-me? Sempre foi assim, sempre fui assim! Deitava na cama e antes de dormir passava horas imaginando histórias, situações, pessoas, idealizando um futuro que jamais chegaria. Mas era bom... alimentava o espírito criativo. Talvez isso tenha fomentado esse lado “escritor”, voraz por palavras, expressões, idéias. Há de se ressaltar o lado bom das coisas.
Contudo, quando se perde o sono pra imaginar o inimaginável, é preocupante. É claro que eu queria que aquela pessoa saísse do meu imaginário e estivesse realmente ao meu lado, tocando suavemente o meu cabelo. Claro que eu gostaria realmente de estar trabalhando numa cidade inglesa fria e encantadora. Claro que seria extremamente gratificante se eu estivesse cantando e pregando para um jovem e não apenas lembrando de um passado que consolidou minha espiritualidade. Claro, claro, claro! Mas há momentos em que se deve pensar na realidade fria e sensata da vida.


O ano está chegando ao fim e me faz pensar o que de produtivo aconteceu ao longo desses 12 meses. Teoricamente eu deveria ter me tornado uma pessoa melhor, mas não sei se na prática isso se concretizou. Trabalhei muito, me diverti muito, extravasei, me resguardei. Foram muitos altos e baixos, mas comigo sempre é. Meu emocional não se mantém numa conduta estável e duradoura, sólida. Ele custa em me cansar, sempre vacilando e querendo se meter no que não deve. Eu já pude concluir quão estúpido ele é. Erra, erra, erra e continua errando. Parece não aprender até onde é seguro andar, sem cair ou tropeçar. Mas hei de culpar um coração imaturo ainda, inseguro, aventureiro? Por mais desastroso que pareça, ele ainda tem muito a conhecer, conquistar. Não, não é hora de auto-flagelações.
Mais um ano virá, e com ele novas metas e promessas. De tudo, posso dizer que o ano que se vai deixa algumas lições que merecem ser valorizadas.


Falar nem sempre é melhor do que se calar.
Sentir é melhor do que imaginar.
Sonhar é menos arriscado do que viver.
Covardia pode ser um tipo de respeito excessivo.
Coragem pode ser um tipo de ousadia imprudente.
Tudo em excesso não faz tão bem, inclusive a prudência.
Pensar demais é equivalente a fazer de menos.


Lições de auto-ajuda, psicologia barata? Pode ser. Mas apenas acredito que minha trajetória este ano poderia ser outra. Se não tivesse afrontado meus pais para dar aquela carona, não teria aquele beijo pela última vez. Se tivesse bebido duas doses a menos, talvez não teria falado demais e quebrado o encanto que se construía com aquela pessoa. Se tivesse sido mais responsável, não teria parado no hospital mais uma vez. Se não estivesse olhando para o rádio, não teria batido o carro. Se tivesse desistido da faculdade por causa das inúmeras noites de cansaço, não teria orgulhado meus pais com a nota da banca. Se tivesse me deixado levar menos, não aceitaria passar aquela noite fora. Se fosse mais ousada, talvez aquela outra pessoa não teria roubado a cena, e também não seria tão feliz como é hoje. Se tivesse respeitado menos, não passaria horas imaginando como seria aquele um minuto – simplesmente um – com alguém que me extasia e fragiliza simultaneamente.


Não importa mais os outros, se uns são francos demais, uns mais volúveis, mais sensatos, mais irônicos, mais confusos, mais amáveis, mais instáveis, mais confusos, mais covardes ou corajosos. O problema está comigo. Ano de olhar para o próprio umbigo, assistir menos tv e deixar de lado, pelo menos um pouco, o Fantástico Mundo de Bobby.

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