quinta-feira, 19 de março de 2009

A menina e o leão

Eis que surgia a constatação: ela finalmente havia perdido o medo. Ele mesmo, aquele fiel acompanhante de longa data, que tantas vezes a paralisou e logo em seguida a encorajou a divorciar-se dele. Mas era um relacionamento conturbado. Um apego anormal, ela não queria estar com medo, mas ao mesmo tempo era impossível deixá-lo de lado. Intrínsico. Inerente à pele, à carne. Estava impregnado.

Ela recorreu aos antigos escritos, às confissões tantas que sempre fizera às páginas de seus cadernos. Ele era um privilegiado, conhecia todos os segredos – doces e amargos – de um coração misterioso, dissimulado. Um fantástico ator que nos palcos sabia representar uma história, um sentimento, dois, vários. Ria e chorava, num piscar de olhos. Se de alegria ou tristeza, ninguém sabia. Mas para aquele coração era mais fácil ser assim, era cômodo, seguro. Quem haveria de se arriscar a entrar no mundo de um desconhecido?

Revirando seus escritos, encontrou. Lá estava ela, a história do amigo Leão, sua preferida nos tempos de criança. Pensava naquele valente leão do conto, a quem julgavam ser feroz, arisco, um sinal de perigo. Mas era justamente esse risco que lhe atraía, e ela entendia porque. Sempre acreditou ser a coragem do leão o que seria capaz de destruir o medo que lhe acompanhava por tanto tempo. Talvez estivesse aí o grande segredo de sua obcessão por ele.

Releu:


“A pequena garota o havia visto num circo pela primeira vez. Observou que tentavam adestrar o bicho, mas o leão parecia bastante resistente, um selvagem. Com o tempo e muitas chicotadas, o animal fora se acostumando ao habitat em que fora colocado, afinal não lhe restavam opções. Era bom para a platéia e para o circo que ele fosse daquela forma e fizesse o que seu adestrador mandasse. E assim, como pássaro sem asas, ele permaneceu. Triste, estranho, quieto. Mas ainda era um leão.

Ela o visitava em sua jaula todos os dias, queria notar os olhos do animal. Antes, um olhar ameaçador. Dia após dia, o brilho foi se apagando, e depois de um olhar defensivo, restou-lhe o inofencivo. Mas ainda era um leão.

Não era simplesmente a beleza do animal, os pelos, a cor, as presas, as garras. Ela via muito além. Era o comportamento que lhe seduzia, a sagacidade, a imagem de que nada lhe poderia ser omitido. Ainda que não fosse tão valente, o leão demonstrava uma força que não era comum à ela. Por fora, um guerreiro; por dentro, uma incógnita. Não se sabia se era mocinho ou vilão. E ela precisava descobrir.

O tempo foi passando e, após muitas tentativas e insistências, a menina conseguiu que o leão se deixasse ser tocado, e eles se aproximaram. Mais, havia cumplicidade, sintonia. Certas vezes o leão se tornava mais arisco, aquietava-se no canto da jaula, mas permitia que a menina ficasse junto, que falasse, que cantasse. Ela lhe fazia companhia todos os dias, o alimentava, se preocupava com ele. Eram amigos, e ele não era o vilão.

Ela estava encantada com o novo amigo. Aquele que era temido pelas pessoas, que tinha cara de bravo, de mau, permitia que ela o tratasse diferente, que fosse carinhosa e se preocupasse com ele. Quando o circo teve de partir, ela sentiu-se só, como se tivesse perdido um companheiro. Pensou nele todos os dias, e sabia que ele não se esqueceria dela. E foi justamente nesse tempo que ela compreendeu o quanto ele fazia parte de sua vida. Após dias e dias de solidão, o circo voltou inesperadamente. E com ele, seu leal amigo. Mas algo havia mudado.

O leão não era mais o mesmo. Parecia feliz ao vê-la a princípio, mas surpreendentemente, ele se distanciou. A garota não entendia o porque, mas sentia algo diferente nele. Um certo desinteresse repentino, uma mudança de comportamento. Eventualmente, o leão tornava-se carinhoso com ela, como antes da partida do circo, mas esses dias foram se tornando cada vez mais raros. A garota parou de ir à jaula com tanta frequência, e eles já não eram como antes. Mas o que ela sentia não havia mudado. Ela o amava, mesmo com aquela velada e sutil indiferença do leão, e ela já não sabia mais quem ele era. Mas não importava, ela não queria que ele lhe dedicasse a atenção de antes, apenas desejava estar ao seu lado e ter aquela amizade que tanto lhe fazia bem.”


Ela relia o conto e tentava encontrar sentido em sua própria história. Preferiu não terminar a leitura, ela já conhecia o final. Mas o medo havia passado e, em algum lugar do seu confuso coração, misturado àquele mosaico de emoções que se construía nele, o leão estaria escondido. E agora ela já estava preparada para enfrentá-lo.

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