quarta-feira, 22 de julho de 2009

Diário de Bordo - Parte I

Caros leitores...


Inicia-se aqui o relato de uma viagem cômica e cheia de absurdos – e põe absurdos nisso. Ponto de partida: Londrina – 'nortão pé vermeio'. Destino: Barracão – fronteira com Argentina (com um nome desses, podia se esperar tudo de tal lugar). Duração do trajeto: cerca de 6 horas...se não estivesse chovendo. Mas dois terços do dilúvio de Noé caiam sobre a estrada. Por aí, via-se que a coisa não ia ser fácil.
Debaixo de tórrida chuva, partimos de Londrina às 5h30 da manhã, com frio e escuridão. Mas a promessa era de bons momentos. A bagagem dos quatro passageiros, entre malas, cobertores, casacos e o sobretudo da Dona Rose (ai de mim se eu não o levasse!), foi suficiente para entupir o porta-malas do pobre Uno, valente guerreiro e herói a nos transportar mais de 600km em tais condições.
Os primeiros cinco minutos foram de adaptação e acomodação. Vidros fechados, janelas embaçadas, calor humano e... odores bem desagradáveis. Antes que saíssemos da cidade, quase morremos asfixiados pelo mal cheiro de um pum criminoso e bastardo: nessas horas, ninguém sabe quem é o pai da criança. Mas isso não importava, a preocupação era uma só: seriam as próximas sete horas envoltas pela mesma atmosfera ácida e amarelada que nos envolvia naquele instante? Suei. Até cheguei a lembrar de um fato marcante numa certa noite chuvosa em Londrina, em que uma determinada amiga – por motivos éticos, melhor não citar nomes - quase nos assassinou dentro do carro da Maria. Nem a gola olímpica de lã que eu usava foi suficiente para segurar a onda quente que subiu. Enfim, deixemos isso de lado, foi demais pras nossas pobres narinas.
Felizmente, as janelas embaçaram e alguém precisou abrir os vidros para que se enxergasse a estrada. E assim fomos, cantando e contando causos, lembranças, histórias. Risadas das memórias de um tempo que deixou saudade e muita coisa boa. E vem o Rafa:
_Eu usava uma jaqueta velha de nylon horrorosa todos os dias!
_E eu encurvava as costas igual Tartaruga Ninjas! Fora o cabelo armação cogumelo. – contei, num acesso de sinceridade inconveniente. Pra não ficar por baixo, o Ed também fez sua confissão:
_Naquela época eu usava pantalona vermelha e um sapatinho Conga branco!
Estava difícil decidir quem era mais... hum, brega. Mas nossas histórias não chegavam aos pés dos causos contados pela mais ilustre – e passada – tripulante. Márcia é o nome da bendita. Não era a heroína do programa da Band e o lema do “mexeu com você, mexeu comigo” passava longe dela. Tia do motorista, 63 anos (“a idade da Wanderléia!”, como ela gostava de identificar, sabe-se lá por que), manca de uma perna, forte propensão ao alcoolismo (há quem acredite que exista algum tipo de parentesco com a Helen), leve incontinência urinária. Doida. Detectadas tais características, eu soube imediatamente que havia encontrado a companhia perfeita para os próximos dias.
Cerca de 11h da manhã, chegamos em Cascavel. Para economizar na Zona Verde (mais interessante do que a Zona Azul daqui), estacionamos dentro de um mercado para bater perna pelo centro da cidade. A pobreza começou a reinar cedo. Fotos em frente à vitrines de farmácias e ao lado de bonecos de posto não faltaram. O grande monumento de Cascavel é um polegar enorme no meio de uma praça, feito do desenho em pedra de milhares de polegarzinhos. E todo mundo tira foto ao lado do Grande Dedo acenando com os próprios dedos. Relato isso porque infelizmente não tivemos oportunidade de tirar fotos com o polegar famoso, mas ficou bem óbvio que dedos são muito significativos para algumas pessoas. Prosseguindo...
O passeio por Cascacity não demorou muito. Logo a chuva, que havia dado uma pequena trégua para permitir nosso reconhecimento do local, voltou a cair e nos obrigou a correr como trombadinhas pela cidade. Molhados e famintos, era hora de almoçar. Ou quase. No relógio do shopping, faltavam dez minutos para o parking free. Pagar 4 reais a hora por causa de míseros dez minutos?! Jamais! O negócio foi esperar do lado de fora aqueles poucos instantes pra depois encher a pança. Pra nós, comida boa, bebida boa. Pra Márcia, cerveja quente. Sim, gelada ela não bebe nem por decreto. É ruim. Bom mesmo é cevada com gosto de xixi.
Mais três horinhas e meia de carro, passando por muita lama e estrada esburacada, conseguimos chegar vivos à Barracão. Na verdade, a cidade era Dionísio Cerqueira, fronteira de Santa Catarina com o Paraná e a Argentina. E após quase 700km percorridos e um dia sacrificante de viagem, surgiu a dúvida da Márcia:
_Aqui ainda é Londrina?


A continuar...

Um comentário:

helenflmoraes disse...

uhahauhauah! gente, essa Márciasópodeer minha parenta msm!